Série “Wine from”: Bolívia

Um destino “não muito badalado”

Texto e Notas de Prova: Gustavo Guagliardi Pacheco

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A maior parte dos enófilos tem no vinho um dos principais temas de suas viagens, mas não o único. Ocorre no entanto que mesmo quando da motivação “não báquica” da escapada, os mais entusiastas – aqueles cujo radar se mantém sempre ligado – darão um jeito, para que, de alguma forma, se “re-aproximem” do modus “taça na mão”.

Há certos destinos que encontram-se sob uma certa penumbra no que se refere ao interesse enofílico e quão mais ainda turístico, estando abaixo de outros, muitas vezes próximos e até mesmo bem semelhantes. Os motivos são variados, indo da menor estrutura para o acolhimento à inexistência de um bom trabalho de divulgação das atrações (inclua-se aí também a gastronomia) do dito lugar.

Este é o caso da Bolívia, um dos países mais pobres, desiguais e fechados do continente americano, mas que no entanto, possui uma belíssima e milenar cultura a ser descoberta, com lindas e remotas paisagens a serem exploradas.

Em geral preterida por seu vizinho de maior apelo, o Peru, o país tem sim os seus encantos e pode se revelar um belo destino underrated, destaque para o enigmático Salar de Uyuni, as belas ruínas pré-Incas de Tiahuanaco, o sagrado Lago Titicaca e alguns dos mais exigentes bike trekkings do mundo. Mas onde entra o vinho nisso?

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“Mar de Sal”: Salar de Uyuni

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Ruínas da cidadela de Tiahuanaco

Ainda que aparentemente o mote da viagem não tenham sido os caldos daquele país, vale a máxima de “em Roma, faça como os Romanos”, e por isso, é fato que uma vez na Bolívia, deve se beber chá de coca e provar os vinhos locais – não necessariamente juntos, é claro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas nunca é demais lembrar que nenhum dos dois são “drogas” – não sendo nem o chá daquela bendita folha um entorpecente / ilícito e nem os vinhos daquele país de todo ignoráveis.

La Paz não é exatamente um destino enogastronômico e o melhor que se tem a fazer é usá-la como base para conhecer algumas das atrações supracitadas (para a travessia do Salar de Uyuni recomenda-se a via pelo Atacama chileno). Mas o Hallwright´s Bar, do casal aussie Katheryn e Josh, no bairro de Sopocachi apresenta, além de boas tapas, uma ótima oferta de vinhos chilenos, argentinos e, como no?. bolivianos!

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Oferta de vinhos locais no Hallwright´s winebar, Sopocachi, La Paz

“Los Vinos de Altura”

A história da vitivinicultura boliviana remonta ao século XVII, com o início do cultivo da vinha por colonos espanhóis e de lá pra cá, foram mais de 3 séculos de muito pouco investimento. A coisa começou a mudar no final da década de 1990, por influência de alguns enólogos e investidores argentinos, mas nos últimos 10 anos, em função da crise econômica pela qual o país atravessa, o cenário voltou a ser de dificuldades.

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As vinhas do país encontram-se entre os paralelos sul 21 e 23, portanto, sob latitudes tropicais, mas a atividade é possível graças ao fator compensador da sua importante altitude entre 1.600 e 2.400 m acima do nível do mar, que irá prover, boa amplitude térmica, ventos refrescantes constantes e condições para um longo ciclo vegetativo das plantas (baixa P atmosférica e menor oferta de CO2).

O país possui uma região produtora principal, ela fica ao sul, à beira do deserto do Atacama, bem próxima à fronteira com a Argentina e se chama Tarija, com seus valles e suas cerca de 24 pequenas vinícolas, que respondem por 6 milhões de litros / ano ou 95% da produção boliviana de vinhos finos. São 2.000 ha de vinhas, boa parte dessas acima de 2.000 metros de altitude, naquilo que parecem ser, de fato, as vinhas mais altas do mundo – há também áreas com pequena atividade nos arredores de La Paz e Santa Cruz, mas a outra região com algum interesse é o Valle de Cinti, também ao sul.

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Os solos em Tarija são majoritariamente arenosos, aluvionais com pH ligeiramente alto, em declives e com boa drenagem, o clima é frio, com verões semelhantes aos mediterrâneos e muita, mas muita insolação por todo o ano.

Atualmente, as castas tintas mais plantadas são Cabernet Sauvignon, Syrah, Merlot, Malbec, Tannat, Grenache e Barbera. Entre as brancas, Muscat de Alexandria, Sauvignon Blanc, Riesling, Colombard e Chenin Blanc. Estas tem se expressado doces, florais e com uma acidez muito alta, enquanto que aquelas têm resultado em vinhos condimentados e de boa estrutura, mas com taninos suaves.

Há vinhos, tanto brancos quanto tintos, surpreendentemente frescos e corretos, mas boa parte de seus tintos parece buscar na madeira um protagonismo dissonante para um perfil de fruta mais leve e pouco expressivo.

A maior parte das vinícolas que trabalha com roble, o faz a partir de barricas usadas compradas de bodegas argentinas e, em grande parte dos casos, procede à retosta das mesmas. A influência do mais tradicional vizinho não para por aí, pois é também a Malbec a cultivar que mais tem crescido em área plantada na região, movimento resultante da aposta em vinhedos altos e da influência de consultorias prestadas no passado a pequenos produtores por alguns enólogos de Mendoza.

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Tradicionalmente, também são muitos os produtores que vinificam a uva Moscatel de Alexandria e a convertem em destilação resultando na Singani, espécie de bebida nacional ou se preferir, a versão boliviana da aguardente.

Quase a totalidade dos vinhos bolivianos permanece no país, sendo extremamente difíceis de encontrar fora dele. Destaco aqui o trabalho de 3 produtores e alguns dos seus vinhos: são eles Casa Grande Osadia (um belo Brut), Campos de Solana (um alegre Riesling, um sério Gran Reserva e um sedutor Tannat) e Kohlberg (um branco interessante de Ugni Blanc e um fiel Syrah). Segue o debriefing…

 

“Los Vinos”

 

Casa Grande Osadia Brut NV, Sta Cruz de la Sierra: 87 GGP

Tom amarelo citrino claro, perlage de boa profusão, bolhas grandes e razoavelmente organizadas, nariz cítrico à toda prova – e eles são bem frescos, mais algum sutil floral. Boca aguda, acídula, mas elegante e com um discreto amargor final que lhe cai muito bem. 11%.

 

Image result for Campos de Solano  vino bolivia Campos de Solana Riesling 2014, Valle de Tarija: 86 GGP

Amarelo-palha límpido. Aromas de abacaxi maduro, raspas de limão siciliano e flores brancas. Sério na secura, seu corpo é leve, a fruta é vívida no palato, a acidez é correta e transmite um ótimo frescor, convidando a mais um gole. Pouco remete às mais clássicas leituras da casta, mas tem personalidade e algo a dizer. 11%. Com tábua de queijos de cabra local.

 

 

 

Image result for Kohlberg ugni blancKohlberg Ugni Blanc 2014, Valle de Tarija: 86 GGP

Amarelo-palha de média tonalidade. Notas de frutos de polpa branca passados, algo que remete a peras assadas, seguidas de agradáveis toques florais. Corpo médio, ataque de início dominado por um certo dulçor, que à progressão em palato é equilibrado pela acidez, média e equilibrada. Final de média persistência. 11,5%. Vai bem com uma salada de quinoa com legumes, com uma tortilha e também com pescados de altitude como trutas grelhadas.

 

 

 

 

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Kohlberg Don Julio Gran Reserva Syrah 2003: 87 GGP

Grená de média tonalidade. Amoras escuras envoltas em cravos, pimenta do reino e uma elegante pelica. Boa tensão, ainda mais picante em boca, guarda toda a tipicidade da casta, é redondo, fácil de beber e gostar, embora não exatamente longo. Harmonização sugerida: pratos elaborados à base de carne de Lhama. 13,5%.

 

 

 

 

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Campos de Solana Gran Reserva 2005, Valle de Tarija: 87 GGP

Coloração grená escuro, translúcido, halo senil presente. Olfativo dominado por violetas, casa de madeira antiga, um leve vegetal e uma fruta negra bem residual. Médio corpo, bom frescor, taninos resolvidos, perfil ascendente em boca, com final picante,  medianamente longo, com a tosta sobressaindo no acabamento. 13,5%.

 

 

 

 

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Campos de Solana Tannat 2015, Valle de Tarija: 93 GGP

Rubi escuro, reflexos violáceos, olfativo rico em cassis e amoras negras bem maduras, com uma instigante moldura de especiarias orientais e um belo frescor herbal. O palato enaltece o fruto negro e é voluptuoso, tem o condimento e a acidez que elevam, o recorte mentolado que refresca, os taninos finos presentes e uma madeira que quase não se sente. Seu final é longo e gracioso traz um quê de couro e finda bem, cativa.

PS: este vinho foi o único que não foi degustado durante a referida viagem, tendo nos sido regalado por Ramon “Pepín” de La Torre, um fantástico guia local e um grande amigo que fizemos, que tratou de nos visitar em sua passagem pelo Rio em 2018.

 

 

 

 

Há ainda um longo caminho a ser trilhado, mas o país parece dar sinais de que quer entrar para o mapa mundi do Vinho. Não nos furtaremos de externar nossa profunda solidariedade com um povo sofrido, mas que segue alegre, puro e hospitaleiro,  sobretudo conosco, brasileiros, que parecemos despertar uma empatia ainda mais especial neles. Esperamos que em breve possam, vinhos e pessoas, todos, se beneficiar de um cenário político, social e econômico mais favorável para o desenvolvimento de todas as potencialidades daquele belo e colorido país.

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2 comentários sobre “Série “Wine from”: Bolívia

  1. Caro Gustavo, muito interessante esse post sobre os vinhos bolivianos. Tive a oportunidade de experimentar um Moscatel de Alexandria, vinificado em seco e que não deixou nada a desejar para muitos brancos produzidos mundo a fora.

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