Carménère, “sem medo de ser”

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco. Fotos: Daniel Pereira

Introdução e história

O ano era o de 1994, o personagem, Jean-Michel Boursiquot, professor de ampelografia da Universidade de Montpellier; o local, a Viña Carmen, Alto Maipo, Chile.

Foi em visita à vinícola que o estudioso se deparou com um fato raro e inesperado: algumas das vinhas tidas como Merlot que, já se sabia, ali apresentavam características muito distintas, eram na verdade de uma cultivar pouco conhecida, não obstante, bordalesa, mas que diferia muito de tudo que se tinha como certo e que por isso, comportava-se de forma bem diferente tanto na vinha quanto na adega.

De acordo com Boursiquot, tratava-se da Carménère, resultado de um cruzamento ancestral entre Cabernet Franc e Gros Cabernet, podendo ser considerada uma meia-irmã de Merlot e Cabernet Sauvignon , guardando também algum parentesco com a Fer, variedade ainda encontrada no sudoeste da França.

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Placa alusiva a redescoberta da Carménère. Viña Carmen

 

O fatídico 22 de Novembro de 1994 é considerado o dia da (re)descoberta da casta pelo pesquisador. Entraria para a história da vitivinicultura chilena, mas naquele momento, como uma data de grande desalento e tristeza: foi assim que de forma unânime, os viticultores teriam reagido aquela notícia.

Não havia nada a se fazer, se não trabalhar. Assim, procederam a reclassificação dos vinhedos e teve lugar um longo período de experimentação com a uva sobre a qual muito pouco se sabia. Era o recomeço para alguns, mas também, o despertar de novas possibilidades para muitos.

Ainda em 1994, um 1o vinho ostentando a casta em seu rótulo foi lançado sob a alcunha de Grand Vidure e conquistou 2 medalhas de ouro. Um outro, também causou sucesso, mas viria a ser confiscado pelas autoridades locais, por não possuírem a Carménère listada em nenhuma das vinhas da propriedade. O começo promissor mostrou-se uma ilusão, em vista das dificuldades que os produtores seguiam experimentando para dominar a casta.

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Do Médoc ao Maipo

Acredita-se que a casta, à época em desuso em Bordeaux, devido à sua maior sensibilidade à filoxera, tenha aportado ao Chile junto às milhares de mudas de Cabernet, Merlot e Sauvignon blanc importadas entre os anos 1840 e 1890, quando famílias abastadas pela indústria do salitre ou carvão expandiam suas atividades visando produtos que lhe conferissem mais status, como foi o vinho.

Pierre Galet, considerado por muitos, como o grande pai da ampelografia moderna, costumava incluir a Carménère, ao lado da Cabernet Franc, como variedade que deu fama ao Médoc. Referências ainda mais antigas também enalteciam suas virtudes, mas já reconheciam a dificuldade de seu cultivo por se tratar de variedade tardia – é uma das últimas a alcançar a maturação dos frutos.

Um manejo desafiador

Uma cepa difícil, implacável, das últimas a amadurecer – dizem os viticultores chilenos – fator que pode ter sido a razão pela qual Bordeaux a tenha lhe virado as costas há quase um século, relegando-a à condição de raridade naquelas terras.

Na vinha é propensa a super-florada e ao desavinho, podendo, a despeito de vigorosa, apresentar plantas com muita folhagem, gerando excesso de umidade e baixa sanidade para os bagos. Para torná-la viável,  é importante que os cachos estejam, todos, uniformemente expostos à luz solar.

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De início, muitos eram aqueles que resultavam herbáceos, com taninos verdes devido aos altos níveis daquele tão malogrado, a isobutil metoxipirazina (IBMP), composto também presente na folha de tomate, nas gramíneas, mas sobretudo no pimentão verde, que, em pequenas quantidades, pode ser bastante atraente, mas, em certo nível, torna-se desagradável.

Alguns dos primeiros esforços certamente caíram nesta categoria, e deram à variedade uma má reputação. Para agravar o erro, alguns vinicultores começaram a colher uvas menos maduras com taninos verdes e cujo estágio em barrica só piorava as coisas.

Cenário atual

Hoje a realidade é outra, o país e seus produtores já encontraram os melhores solos para “ela” – em geral, são aqueles que limitam de forma natural o crescimento vegetativo enquanto ainda mantêm o dossel de folhas ativo.

Na atualidade, os diferentes vales e regiões parecem já ter definido, cada um, o seu estilo, produzindo de acordo com suas particularidades. Há do elegante ao picante, do fino ao poderoso, com fruta completamente madura, de boa complexidade, baixa acidez e, sobretudo, sem o herbáceo verde exagerado que prejudicava esforços anteriores.

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Verificou-se também que o Chile não era o único a cultivar Carménère sem saber; descobriu-se recentemente que alguns Cabernet Franc cultivados na Itália, bem como uma certa Cabernet Garnischt, que ocupa grandes plantações na China, são, em realidade, Carménère!

Atualmente, parecem dissuadidos os chilenos em fazer dela a casta ícone do país (tal qual Malbec na Argentina, Pinotage na África do Sul e Shiraz na Austrália) mas como já ouvi de um dos mais ilustres enólogos de lá: “Carménère é parte de quem somos e parte do nosso país” – certamente, havia um sentimento de grande orgulho aí.

Não seria a hora de darmos outra chance a “ela”?

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No dia 09 de Outubro de 2017, realizamos uma prova ímpar, com aqueles que, indubitavelmente são os melhores monocasta desta no Chile e, naturalmente, do mundo.

Com uma instrução impecável ministrada pelo Dr. Alexandre Braga, também responsável pela curadoria dos vinhos, foi possível provar que a casta atingiu sim a “maioridade enológica” e é capaz de fazer grandes vinhos!

Recepção aos convivas

Single Vinneyard Falaris Hill Chardonnay 2015: 92 GGP

Amarelo citrino límido e translúcido. Fragrante mineralidade permeada por notas de limas frescas, avelãs e um leve floral de acácias. Mantém a toada marítima em boca, desfilando uma exuberância contida em meio a um ambiente ácido de grande prazer, é crocante, cativante e convida para o próximo gole. 14%.

Em prova

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8d63e6f1-4b53-4e73-a3c2-f7dbe326182cViu Manet El Incidente 2008, Colchagua: 91 GGP

Blend com 11% Malbec e 2% Petit Verdot. Vermelho púrpura, reflexos violáceos. Com fruta negra agradável, alcaçuz e leve floral ao nariz, em boca apresenta-se volumoso e de boa matéria, mas cortado por um bom frescor, acidez média, taninos levemente rugosos e carvalho moderado, evoluindo bem em taça numa crescente de franqueza e equilíbrio. Ao final, somam-se aos bagos, notas terrosas. 14,7%.

 

9bb46655-8176-4e62-b485-4436659d6c5a.jpgCasa Silva Microterroir 2008, Los Lingues: 88 GGP,

Coloração vermelho rubi de média tonalidade. Pimentão verde permeado por especiarias picantes, frutas vermelhas maduras, notas mentoladas e tostadas leves. Magro, alto em sua acidez, taninos resolvidos, médio corpo, esguio e provocativo, passo de boca acetinado, de ótimo frescor, mas pouca persistência. 14%.

 

8675f535-1d23-49e4-adf0-db7045faa334Ca´del Bosco Carmenero 2008, Lombardia: 88 GGP

Rubi de boa intensidade, bordo algo bronzeado, sem sedimento. De início pimentão verde, que logo dá lugar à notas defumadas em torno de um núcleo de framboesas encarnadas e temperadas, com um toque de madeira envelhecida. Corpo de médio a cheio, palato de textura áspera, cortada pelo frescor, ligeiramente rústico, de bom comprimento, com pós boca de alcaçuz e couro. Bela evolução em taça! 13,5%.

 

31591251-a7c7-4ba0-adbf-c72295026140Santa Rita Pehuén 2007, Apalta e Maipo: 92 GGP

Com 5% de Cabernet. Ainda tingido em vermelho púrpura escuro e opaco, fechado, descortinando-se aos poucos em frutos azuis maduros, destaque para mirtilos, seguidos de pimenta negra, alcaçuz e tabaco. De bom músculo, mastigável, volumoso, boca madura, mostra poder, invejável equilíbrio, findando longo e intrigante. 14%.

 

b68128cd-7f88-4427-8536-7c5bbda51cffSanta Carolina Herencia 2007, Los Lingues e La Rinconada: 93 GGP

Vermelho rubi escuro, matizes arroxeados. Amplo leque aromático de amoras levemente maduras, figos secos, toques terrosos e de alcaçuz, envoltos por eucalipto e uma leve pimenta branca. Bom corpo, sedutor e estruturado, impressiona pelo frescor e pela elegância da fruta. Final complexo, herbal e cheio de sutilezas. 14,5%.

 

b92104a3-e61b-429f-ab85-693e569e46a8Errazuriz Kai 2011, Aconcágua: 94 GGP

Corte com 5% de Petit Verdot. Rubi escuro, tons arroxeados. Ameixas, amores e groselhas bem escuras, toques especiados e temperados muito agradáveis, algo de tosta muito bem inserida e um alcaçuz gentil. Redondo, muito sedoso, tomando o palato com grande classe. Final longo, especiado e ainda mais focado na fruta negra. 14,5%.

 

04fc6d02-5f65-434e-983d-adc0a6d29f05.jpgPurple Angel 2013, Apalta: 91 GGP

Com 8%% de Petit Verdot. Rubi escuro, reflexos de média tonalidade. Amoras de média madurez. Permeadas por discretas notas de pimentos verdes e sálvia. Seco e de bom porte, suculento e de acidez média, desfila taninos finos e provocativos, tudo muito equilibrado. Preciso e com acabamento médio. 14,5%.

 

f417f1ad-6f75-4d0b-a593-3facb4966a7fViña Von Siebenthal Tatay de Cristobal  2009, Panquehue, Aconcágua: 94 GGP

Blend com 10% de Petit Verdot. Rubi escuro brilhoso, reflexos médios. Austero, tardando em exprimir-se em frutas vermelhas escuras, chocolate em pó e certa mineralidade. Ataque firme, acidez média, encorpado, rugoso, taninos à giz de grande estirpe. Ótima progressão em camadas. Acabamento belíssimo exaltando a fruta compotada. 14,7%.

 

edc275d8-e17a-4f81-bff2-8a0e2d0aef07Carmin de Peumo 2009, Peumo, Pirque e Puente Alto: 93 GGP.

8,5$ Cabernet, 6,5% Cab Franc. Vermelho escuro, matizes rubi. Café torrado dominando o exame olfativo sobre cerejas em calda, amoras pisadas, cedro e toques herbais quer lhe caem muito bem. Bom corpo, extraído sem perder a finesse, frescor na medida. Muita personalidade, final macio e dialogante. 14%.

 

eab348bd-0d76-4467-85a3-310eb74534ae.jpgTerrunyo 2012, Peumo: 91 GGP

Com 14,5% de Cabernet. Vermelho profundo e opaco. Frutos bem escuros, maduros e ressecados, alcatrão, pimenta do reino, lenha queimada. Ataque suculento, perfil defumado, é corpulento e feliz em passar uma sensação de boca arredondada, tem perfil sério, vocação para a mesa e um acabamento muito viril. 14,5%.

 

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Trilogia de colheitas tardia chilenos

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6fc46fb2-48a5-4292-a306-5ba2dab0f6a2.jpgVillard El Noble 2011, Casablanca: 92 GGP

50% Sauvignon, 50% Viogner Ouro claro. Ótima a complexidade do botrytis em meio a elegantes cítricos adocicados, como torta de limão e geleia de laranja, secundados por mel, parafina e um toque de menta. Palato de bom balanço ácido/doce, a fruta melada se integrando bem à sutileza dos tostados do estágio em barrica. Fresco até o final, surpreende pela profundidade. 13%.

 

 

b47589da-54ba-4439-98e1-e6850c70f7d1.jpgErasmo Torontel Late Harvest 2011, Caliboro, Maule: 90 GGP

100% Torontel. Amarelo palha, intensidade média, reflexos brilhosos. O nariz é tropical e exótico, combinando abacaxi em calda, cítricos compotados, chutney de manga e um tênue floral. Menor é a intensidade da fruta em uma boca patinada, um tom abaixo na acidez, com sugestões de farmácia e notas oxidativas ao final. 12,1%.

 

 

ca0d8ce5-db5f-4465-bd88-df96d1fff770.jpgMorandé Edición Limitada Golden Harvest 2007, Casablanca: 90 GGP

100% Sauvignon blanc. Bela coloração de ouro envelhecido tendendo ao alaranjado. Nos aromas, predominam damascos secos, pêssegos maduros e casca de laranja. Espesso, generosamente doce e mais untuoso do que fresco, a fruta encontra-se emoldurada por uma canela; é longo e persistente. 12%.

 

 

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Agradecimentos: Ricardo Pikula.

Participaram desta prova: Alexandre Braga, Daniel Pereira, Diogo Franco, Fred Fischer, Fred Wright, Guilherme Rudge, Gustavo Pacheco, Gus Pingo, Helio Cordeiro, Jef da Cruz, Júlio Areas, Luis Lelis, Luiz Octávio de Moura, Marcus Verol, Nelson Mariano.

 

 

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