Vieux Millésimes, Grandes Vinhos de Guarda

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco. Apresentação: Jean Claude Cara. Fotos: Manoela Ideses.

903197f9-b6c4-480d-9dd6-068da6ae1be0

Reflexão

Boa parte da reputação dos grandes vinhos franceses deriva de sua capacidade de evoluir harmoniosamente com o passar dos anos. Deve-se lembrar que são, sim, elaborados para serem bebidos, mas que a tendência de nosso mundo imediatista, hoje, é bebê-los exatamente ao passo deste tempo: apressadamente.

Assim, a maior parte do que se vinifica na atualidade, têm sido feito para que possa proporcionar prazer ainda no início da vida em garrafa. Seus destinos não vem sendo traçados por solos ou safras. São, em realidade pré-concebidos. Pré-concebidos para ser um Grand isso, um Super aquilo, tecnicamente elaborados para parecerem irrepreensíveis; produtos construídos, vinhos tecnológicos!

b4a136e6-75b0-4799-b8af-1eef513dfb45 3e8766c8-b558-4607-a07c-3a8088d6e8c7 c8d2c86d-c18d-4ae8-9183-326074b42ad3

Talvez “funcionem” – e por hora me refiro a tudo (líquidos e rótulos) e a todos – como vitamina social, objeto hedonista, fonte de exercício cognitivo. E se podemos alcançar grande satisfação já agora, para que esperar? Sintomas da ignorância dos efeitos do envelhecimento e da crescente incapacidade da maior parte dos pretensamente enófilos de entender a sutileza e, indo mais além, os benefícios para a saúde, de verdadeiros sumos ancestrais em face a jovens trovões químicos, catalizados por hiper-enzimas, fermentados por leveduras high tech, micro-oxigenados por citratos metálicos, corrigidos, acidificados, dimetilados; repletos de efeitos especiais, pirotecnias agronômicas e enológicas.

É aí que podemos, para que fiquem ainda mais claras as diferenças, “reduzir” o vinho à sua primordial condição de suplemento alimentar milenar, afinal, tabletes efervescentes, taninos da madeira e cachos sobremaduros de colheitas à toque de caixa, definitivamente não são as nossas melhores fontes de antioxidantes. É possível que tudo aquilo que a natureza dispendeu milhões de anos para formar (e encarregou boas décadas em cave para lapidar), seja assim tão fácil de se obter daquela bela e pesada moderna garrafa e de seu sumo denso, retinto e tão fortemente aromático?

f264b320-4784-4658-a300-d877402422a1 4b1cdb31-e6d9-4e98-832f-0c711a534091 36fa685b-a7da-4954-9cc9-d21b610c5f3c

Não se trata apenas de ser ou não ser, ter ou não ter. De um lado, métodos muito antigos, homens em sinergia com a sua terra, frutos de cepas que o processo evolutivo se encarregou de dar a devida chancela: ali é o lugar, faça assim. Do outro, a muitas vezes bem-vinda modernidade, que, ceticismos à parte, é capaz de grandes proezas, mas que, em grande parte dos casos, resultam do mimetismo de virtudes, do maquiar das imperfeições em frascos comprometidos com mercados e consumidores, concursos e vitrines em uma lógica de “fim que (não) justifica os meios”.

 

Do Bom e do Velho

A demonstração disso foi feita por Jean Claude Cara, que, nos brindou com a sua presença, compartilhando de todo o seu conhecimento e lançando, para a ocasião, frascos antológicos de suas magníficas caves em Beaune.

Grande defensor da Borgogne ancestrale, Jean é uma das sumidades sobre o tema. Versando com a autoridade e a fluidez de um escritor, mas também com a simplicidade de um campesino bourguignon, impressionou a todos, também pela destreza com que prescindiu de parafernálias outras senão apenas o seu simplório tire-bouchon para desvendar rolhas esfarelentas, nos proporcionando uma tarde memorável.

 

 

Em Prova

2 painéis com 5 garrafas cada, ao total 10 vinhos. A despeito do altíssimo nível da prova, em razão do caráter atemporal das garrafas e, em respeito a todos que contribuíram para que chegassem até nos, excepcionalmente, optamos por não qualificar os vinhos na habitual escala numérica de 100 pontos.

FER.jpg 4a0c775b-04dd-4123-8b55-b5db65cedc5c

Serviço do vinho: atração à parte nas degustações de Vieux Millésimes de JC Cara

 

1o painel:

9a681ecf-ee42-486b-a294-0734059fe265

 

b6f9cf81-07ba-405d-a57d-9e848a8e63ad.jpg

Chambolle Musigny 1955 (sem rótulo)

Preenchimento ao colo do pescoço, ausência de rótulo, lacre intacto, rolha acometida por larvas de inseto, porém em razoável estado de conservação.

Grená de média tonalidade. De início, uma acidez volátil que logo se dissiparia, dando lugar a uma expressão fina de frutos vermelhos secos com toda a elegância de Chambolle. A evolução em taça nos trouxe grande surpresa, com o descortinar de um inusitado frescor, a preservação da fruta e a elevação dos taninos. Fino, esguio, acidez presente. Brilhante visão do que um bem envelhecido Chambolle pode e deve ser, com alegria e impressionante jovialidade.

 

825389c8-e1d4-43cf-bb45-cbd23792f838 Chatêauneuf-du-Pape Mont Redon 1976

Invólucro em perfeito estado, com preenchimento ao 1/3 superior do pescoço e rolha íntegra.

Granada, reflexos amarronzados. Carregado com figos maduros, uvas e ameixas passificadas mergulhadas em Brandy, secundadas por sugestões de garrigues sobre uma cama de terra queimada e um leve toque de lavanda. Redondo, substancioso, taninos doces, há uma sensação de ausência de acidez, deixando um ar untuoso e o volume dominarem a cena, mas o vinho é brilhante, enérgico e absolutamente prazeroso.

 

 

32bde529-cef2-4fe3-82b2-22731e9dd2d5

Chassagne Montrachet (rouge) Tastevinée 1984

Garrafa desprovida de rótulo, lacre preservado, rolha em razoável estado, nível ao 1/3 médio do pescoço.

Coloração granada muito vívida. Toda a doçura de um raro Chassagne tinto, bem envelhecido, divinamente maduro em sua encantadora fruta compotada beirando a exuberância. Taninos delicados, acidez muito bem proporcionada ao todo, estrutura média. Exclamativo, revelador.

 

 

b31bcb2f-fd6a-41f7-bb82-20ebb3aff3f7Chambertin Clos de Bèze François Martenot 1984

Telha de média tonalidade. Nariz molhado, marcado por agradáveis elementos terciários, ênfase para o sous-bois, emoldurados por linhas limpas de cerejas ainda muito presentes. O palato é fino, esbelto, longo, sua textura é distinta, o equilíbrio, impecável. Um Chambertin de enciclopédia lapidado pelo tempo.

 

 

 

Villars 1997.jpg

Château de Villars Fontaine Les Genevrieres 1997

Vermelho-rubi de intensidade bem preservada. De início austero, após a aeração, abre-se aos poucos em cerejas e framboesas escuras, toques de pimenta negra, incenso e delicadas nuances florais. Ataque firme, desfila um certo poder contido, a barrica está bem inserida, tem nervo, taninos sofisticados e sua acidez confere ótima tensão, culminando com um final longo e com ótima definição de fruta.

 

 

2o painel

e2111045-a64a-46be-97ae-a72b01a8be52

 

58c77d97-29f8-4ca4-a4db-fc917a7c75eeGevrey Chambertin Armand Naulot 1959

Rótulo comprometido, lacre danificado, rolha em estado avançado de deterioração. Nível baixo, ao colo.

Coloração acastanhada escura, pendendo para o café, com razoável turbidez devido à movimentação inadvertida da garrafa. Após 3h de repouso em taça: caramelo, toffee, nozes assadas e frutas secas em um ambiente resinoso a conferir alguma complexidade. Leve, seco, taninos e acidez residuais, baixa sensação de álcool, acabamento amendoado, remetia a um Porto dry branco envelhecido.

 

 

 

 

brouilly foto.jpg

Brouilly Foillard 1966

Garrafa, rótulo e lacre em ótimo estado, nível à meio pescoço, rolha embebida.

Em tons acobreados. Os aromas são complexos, com sugestões de farmácia, cal, tamarindos, damascos secos, tênues temperos orientais, tudo envolto numa instigante salinidade. Estrutura delicada, taninos sutis, frescor suficiente, delicioso em seu sentimento calcário-mineral. Comovente e cheio de vida, exemplo encantador de Beaujolais envelhecido de uma bela safra.

 

 

 

90ef1da7-8497-4d3b-b441-29c56104188e

Chambolle Musigny Leon Volpat 1974

Rótulo desbotado, lacre íntegro, rolha infestada pelo fungo penicilium em sua face superior, porém sem comprometimento do líquido, que se encontrava ao nível médio do pescoço.

Traje laranja pálido, nariz à trufas e terra úmida, nuances de pelica em oposição a uma cereja seca requintada. Estrutura elegante, impressão de leveza, bela tanicidade, altivo, sedutor e aristocrático, prolongando-se em uma cauda longa e classuda.

 

 

 

6cb4529a-2d64-4bc1-a37c-0301a3d515a5Aloxe Corton Chevalier 1989

Coloração grená, reflexos ambarinos. Tem um certo charme floral à violetas e alia pequenos frutos licorados como morangos e groselhas a toques balsâmicos e delicados defumados de caixa de charuto. Estrutura moderada, taninos polidos, acidez baixa, suculento, com notas adocicadas mais pronunciadas. Os tostados favorecem um final generoso. Em um momento muito especial de sua vida.

 

 

 

edb43665-e767-442b-8bc9-9a84a6083f0f

Château de Villars Fontaine Jiromées 1998

Belo dourado de média tonalidade. Boa composição de baunilha e avelãs sobre frutas brancas ao nariz. Barrica acertada, amanteigado, mas nada pesado, vigoroso e ao mesmo tempo gentil. Seco, crocante, sabor e estrutura em crescendo, Seu caudelie é medianamente persistente e sutilmente mineral.

 

 

 

b0221759-09a7-4375-b79d-26f7e3b71ca5

477ae221-5b58-48ea-984b-3c3401cad123

FEL.jpg

Tenho a impressão de que, esta tarde, a do Sábado, dia 26 de Agosto de 2017, fluiu uma forma muito especial de felicidade para todos os presentes. Vinhos rebarbativos, emocionantes, garrafas que pelas mãos cuidadosas de cavistes apaixonados, foram capazes de atravessar os tempos e aqui chegar, contando-nos muito sobre como era (e deveria sempre ser) a essência dos grandes vinhos e de seus homens.

Momentos excepcionais são a regra na Safrada, mas é fato que, aqui, estivemos em uma das mais puras, essenciais e magistrais provas que seres rudimentares podem ter de organismos evoluídos – ou, “que uma célula animal pode extrair de um célula vegetal” – se é que me entendem…

FED

Sobre Jean Claude Cara: caviste franco-brasileiro considerado um dos maiores especialistas em Borgonha e vinhos de guarda da atualidade, grande defensor da “Borgogne ancestrale”, autor do livro “Vinhos da Borgonha”.

Agradecimentos: Fernando Marques (gerente Grand Cru JB), Carol Bersuc (sommelier Grand Cru JB), Rodrigo Correia (queijeiro Rancho dos Sonhos), Simone Souto (Graça Torradas).

Anúncios

Um comentário sobre “Vieux Millésimes, Grandes Vinhos de Guarda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s