O Paradoxo de Colares: a história contada em uma prova com 9 décadas.

Uma região única, uma vinha muito particular, castas ancestrais e a mão obstinada do homem. Estive em Colares e me encantei.

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco, fotos: Rogerio Felício

Para o célebre Eça de Queiroz, Colares era, à sua época, lar do mais francês dentre todos os sumos portugueses e só isso já seria suficiente para despertar-nos para a curiosidade sobre aquilo que é produzido na mais ocidental vinha do Velho Mundo.

Muito além disso, estamos diante de um daqueles contos da mais pura insensatez humana, retratado com romantismo por vinhos de impressionante singularidade, plenos de personalidade, ricos em complexidade e convictos de sua longevidade. Colares é uma lenda, uma lenda viva e admirável.

Imagem1.jpgkol.jpg

História

Os vinhos de Colares, prováveis sucedâneos dos vinhos da Azóia (Cabo da Roca), famosos em toda a Europa na Idade Média, devem a sua notoriedade e existência à casta tinta Ramisco, que terá sido introduzida na região no século XIII por ordem do rei D. Afonso III, trazida, muito provavelmente, da França.

Entre o mar e a montanha

Foram, o recuo do mar e a intensa atividade magmática (que soergueu a Serra de Sintra) no período Terciário, os fenômenos geológicos que originaram a plataforma lacustre que ali está. Seguiram-se milhões de anos de sedimentos depositando-se sobre o fundamento de argila calcária até formarem-se os terrenos arenosos onde hoje assentam-se as vides em Colares.

siny

A Serra de Sintra

 “Contra tudo e contra todos”

A vinha ali não é obra do acaso, mas é, definitivamente, produto do improvável. Isto porque falamos de vides em pé franco, criadas na areia, expostas às mais extremas condições junto ao oceano Atlântico, ao sabor da ira dos ventos marítimos e da tenaz corrosão salina. É mesmo emocionante ver o que é preciso fazer para ajudá-las a sobreviver aos próprios elementos que lhe dão personalidade.

A existência ou melhor, a persistência de Colares como denominação, em si, já é feito por demais admirável, pois afora os elementos naturais adversos, está a mesma ainda à mercê da irremediável especulação imobiliária, responsável pela extinção de mais de 99% da área plantada.

O engenho do homem tem dessas coisas; naquelas areias, pode-se dizer que rebeldia, romantismo e teimosia (com boas doses de tentativa e erro) foram – e ainda são, fatores decisivos para se chegar a algum lugar em termos vitivinícolas.

jikuykyukl.jpg

Apogeu, queda, ressurgimento e revalorização

Totalmente paradoxais foram também as circunstâncias que levaram Colares à proeminência na virada dos séculos XIX e XX. Enquanto a filoxera deixava um rastro de destruição dizimando quase todos os vinhedos do velho continente, naquelas areias, situava-se um raro caso de imunidade ao pulgão.

Neste cenário de desalento vitivinícola mundial, Colares expandia suas vinhas, aumentava sua produção e incrementava as exportações. Seus vinhos prosperaram ao longo de décadas e passaram a despertar o interesse de grandes grupos.

Entre as décadas de 1930 e 40, a região ocupava mais de 1.800 hectares de área plantada, possuía cerca de 700 vinhateiros e chegou a exportar mais de 50.000 garrafas/ano. Mas a fama cobra seu preço e passaram a ser constantes os atentados contra a sua qualidade, com aguardenações, misturas com lotes de chão rijo e outras procedências, praticadas por gananciosos negociantes.

ssds.jpgImagem1.jpgoooooo.jpg

Com o objetivo de centralizar as atividades e assim, combater as adulterações, a Adega Regional de Colares começa a operar em 1931 e consegue algum êxito no sentido de preservar a essência da denominação contra armazenistas e comerciantes dispostos a tudo pelo lucro. Até que, a partir dos anos 50, com o advento do culto à beira-mar, os especuladores triunfariam e a área destinada às vinhas passava a dar lugar a construções de veraneio. A vinha em Colares estava, progressivamente, desaparecendo.

Foram décadas de desânimo e apatia, com o abandono da atividade por muitos e uma produção tímida com comercialização irregular por aqueles poucos que restaram. Sob o prisma da racionalidade, tudo levava a crer na extinção da denominação. Mas estamos em Colares, onde tudo é ilógico e nada faz sentido.

Nos últimos 20 anos, a região saltou de 8 para 14 hectares de área plantada – o maior crescimento em percentual de todo Portugal vinícola! Não só isso, a região tem sido acometida, recentemente, por ares de um salutar otimismo e parece experimentar, ao menos em parte, a reglorificação de seu prestigioso passado.

Por sua modéstia, parece desproporcional a exaltação midiática com a qual Colares tem sido euforicamente descrita, muito embora seja fato que ela é fruto do esforço de uns poucos produtores em reavivar a denominação.

Imagem1.jpghgthrtjhrt

Entre estes estão os Baeta, família que em 1988 assume as instalações e todo o espólio dos vinhos antigos daquela que talvez seja a mais distinta marca local, a Viúva Gomes. A negociação também incluiu o direito de aquisição de vinhos junto à Adega Regional de Colares, sem a qual seria inviável a manutenção da produção.

Ser ou não ser Colares, eis a questão

A zona demarcada de Colares compreende a praia da Adraga, parte de Almoçageme e Colares, Mucifal, Banzão, Rodizio, Azenhas do Mar, Fontanelas, Magoito, Casal de Pianos e praia da Samarra. A margem direita do Rio Colares, que deságua na bela praia das Maçãs, sempre foi aquela de onde se conseguem os melhores vinhos.

Para que possam rotular seus vinhos como Colares, os viticultores devem respeitar uma série de normas. A primeira e mais fundamental delas é que a vinha deve estar arraigada em terreno de areia solta. Para se plantar, é exigido que, numa primeira fase, seja retirada a areia a vários metros de profundidade – a legislação estabelece o limite de 10 metros para tal escavação – até que se atinja a argila. É neste subsolo argiloso, que varas-guias com mudas serão fincadas para enraizar as vides. À medida que a planta cresce, vai se recobrindo o sítio escavado com a própria areia.

yjnyhyjnthjnm.jpg

Vinha rasteira na praiana Colares: nada com as tradicionais espaldeiras

Após um par de anos, as videiras atingem a superfície e passam a crescer horizontalmente, espraiando-se junto ao chão, como vegetação costeira rasteira, numa configuração que em nada se assemelha a das vinhas tradicionais. Bagos já formados e pendentes, à medida que amadurecem também serão abordados de maneira muito particular, com pequenas estacas de madeira sustentando as porções terminais dos ramos visando melhor ventilação e prevenção do contato com o areia  Finalmente, mas não menos importante, convém ainda abrigar o areal do sabor das rajadas marítimas, sobretudo Norte e Oeste; para isso, lançam mão das caniçadas, paliçadas de cana seca que acabam marcando a paisagem com quintais geométricos.

O regulamento da Região Demarcada de Colares define limite de produção de até 2 toneladas por hectare. No que se refere às castas, ao menos 80% dos brancos e dos tintos devem ser lotados respectivamente por Malvasia de Colares e Ramisco, permitindo-se a incorporação de até 20% de outras castas da zona, de preferência Arinto para os brancos e Molar e João Santarém para os tintos. Seu amadurecimento deve ser de, no mínimo, 18 meses em madeira, seguidos de 3 meses de envelhecimento em garrafa.

Os vinhos

Notáveis por tudo o que se distinguem daquilo que hoje nos habituamos a ter, beber e entender, aqui têm lugar, vinhos austeros, evocativos e misteriosos, nunca superiores aos 12% de álcool – e isso vale tanto para brancos quanto para tintos. Precisam de décadas em garrafa, sobretudo os tintos.

O Colares Malvasia, no geral, é um branco de média intensidade aromática, revela-se na sutileza de maçãs assadas, frutas secas, leves amendoados, sempre num contexto salino, por vezes, defumado. Mesmo jovens, costumam desfilar perfil oxidado e seco, acidez vibrante, corpo de leve a médio, terminando salinos e reconfortantes.

Colares tinto: vertical com 8 décadas

Seus tintos têm pouca ou nenhuma fruta; notas terrosas e ervas secas, envoltas em uma atmosfera saloba são a regra para o envelhecimento. Magros, abastados de pungente acidez, agressivos tantos são seus taninos e assim, impossíveis enquanto jovens. É ao passo do tempo que se revelam, esbatendo-se, pouco a pouco suas adstringências com estágio em barrica e o tempo de garrafa, impressionantes como aliam rusticidade a elegância.

Em Prova

No último dia de 10 Março de 2017, a história de Colares nos foi contada da melhor maneira possível: em taça! Percorremos 9 décadas de sua saga através de seu branco e seu tinto, representados por 2 produtores para os brancos: JMC e Casca Wines e outros 3 para os tintos: Viúva Gomes, Chitas e Real Vinícola.

Salão aberto, os convivas era recebidos com uma taça de um ainda jovem Malvasia de Colares ao lado do melhor bolinho de bacalhau da cidade.

A apreciação das 8 garrafas de tintos teve, à sua escolta, antepastos, seguidos de Bacalhau Rampinha para o jantar, uma especialidade do Rancho Português.

colares 11 colares 14

Finalizar os trabalhos foi tarefa para o não menos emocionante e “fora da caixinha” Malvasia de Colares, desta vez antigo, servido à luz de um cremoso e rico Serra da Estrela, a única concessão geográfica da noite.

 

Debriefing dos vinhos

 

20140116_132947-8x61-8x6 Monte Cascas Malvasia de Colares 2012: 91 GGP

Chama a atenção pela garrafa bojuda, prenunciando um perfil moderno e assim o é, com estágio em barricas francesas usadas por 11 meses com batonnage. Amarelo-palha de reduzida intensidade. maresia, algo de maçã verde, leve oxidação, vegetal seco e um fundo de cedro tostado. Boca incrivelmente seca, fresca, possui nervo, estrutura e profundidade (sendo mais gordo do que reza a tradição local), tudo sob a aura de uma onipresente salinidade. 11,5%.

 

 

 

colares 4

Viúva Gomes 1931: 90 GGP

Sua coloração grená de boa tonalidade despista muito sobre sua idade. O nariz é frágil e complexo; figos passificados, folhagem seca, pão embolorado, sugestões lacustres salobas, cinzas e algo de trufa negra. Corpo médio, com o frescor ali, presente, e taninos empoados de tão finos abraçando, gentis, o palato. Admirável, como uma conversa com um lúcido ancião aos 86 anos. 10,5%.

 

 

colares 5

Viúva Gomes 1948: 92 GGP

Acastanhado escuro, reflexos granada claro, imenso na cor e nos aromas balsâmicos sofisticados, conjuga ainda notas terrosas de bosque úmido a fumados de pólvora e toques adocicados de crème brûlée ao salitre de um bom queijo curado. Moderado em estrutura, taninos delicados, mas picantes, acidez agradável, cativante na minúcia da romã escondida em seu fim de boca. 10,5%.

 

 

colares 6 Chitas 1955: 88 GGP

Vermelho-telha, matizes alaranjados. Abre-se em um vinagrinho seguido por toques oxidativos que logo se deixam encobrir pelo embate sal-doce de notas sugestivas de presunto ibérico versus marmelada. Passo de boca um tanto desajeitado, precário mas tocante no arranjo salino e charmoso no frescor da sutil mas revigorante madeira de eucalipto. 11%.

 

 

 

 Viúva Gomes 1968: 87 GGP

Aspecto mogno, halo pálido, reflexos ambarinos. Aromaticamente mais fechado, bem austero e pouco revelador em notas de terra úmida e alcatrão. Suave na textura, claudicante na acidez, sob um tom magro, ligeiro e aparentemente inocente, esconde-se uma personalidade graciosamente bucólica e campesina. 11%.

 

 

 

Viúva Gomes 1973: 89 GGP

Vermelho-grená, matizes marrom claro. Dominado por notas esfumaçadas de forno à lenha e castanhas assadas sobre um tímido fruto negro ressecado. Em boca, o fundamento da tosta se reafirma, havendo suficiente contraponto na acidez, o ambiente é de grande secura e taninos de fina textura compõe bem a trama de um vinho pouco elegante, mas raçudo e com imenso caráter regional. 11%.

 

 

 

Chitas 1984: 92 GGP

Granada brilhoso, tons alaranjados. Sugestões canforadas e resinosas abrem uma paleta de grande amplitude, também pontuada por terrosos de beterraba e cortada pelo verde e muito bem-vindo frescor de um bouquet garni. Estrutura salina moderada, sentimento agridoce e exótico, é lancinante, virtuoso em uma profundidade sutil; bela extensão. 11%.

 

 

Chitas 1992: 91 GGP

Rubi escuro, veios arroxeados. Cedro novo à frente, secundado por notas pouco efusivas de ginja, resina de cedro e algum iodo. Bom corpo, esguio e tenso por toda a prova, 25 anos em garrafa deram-lhe grande profundidade, fluidez e dinamismo, avançando bruto por uma boca que se recusa a terminar. 11,5%.

 

 

 

Chitas 2006: 7 GGP

Tingido de um púrpura vívido, emana notas de redução como tinta de caneta e pólvora, seguidas de couro novo, ginja e algum fruto vermelho fresco. Indômito, rebelde, repleto de arestas, taninos não mais que médios, superados pela tensão insolúvel de uma pungente acidez. Finda com razoável percepção de fruta, mas deixa-se recortar por um certo travo metálico. Futuro incerto. 12%.

 

 

colares 15 d

MJC Malvasia de Colares 1967: 88 GGP

Acobreado escuro, nuances aloiradas, manifesta oxidação, emana salinidade, surpreendentes cítricos de laranja amarga, notas de vernizes, amêndoas e açúcar mascavo, com um toque marítimo molhado remetendo a um bom Madeira. Emoldurado por um todo salino, irrompe incrivelmente seco e vivo, findando fresco e cafeinado. 11%.

 

 

Agradecimentos: Jorginho (sommelier) e Mesquita (maître), Rancho Português.

 

 

 

Anúncios

2 comentários sobre “O Paradoxo de Colares: a história contada em uma prova com 9 décadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s