Priorat: meteórica ascenção, meritório sucesso.

Texto: Gustavo Guagliardi Pacheco

A mais celebrada região espanhola dos últimos anos, o Priorato tem produzido tintos simplesmente espetaculares. Área demarcada reduzida, um cultivo limitado e condições climáticas extremas fazem destas garrafas, artigos difíceis de encontrar mesmo na Espanha.

História

Estando tão próximo de Tarraco – a atual Tarragona -, antiga capital romana da Península Ibérica, acredita-se que seus primeiros vinhedos tenham sido plantados há mais de 2 mil anos. Todavia, alguns dos primeiros levantamentos sobre sua vitivinicultura datam do início do século XII, quando o vinho teria sido introduzido e produzido com finalidades religiosas por monges cartuxos da Ordem de São Bruno, provenientes da Provence, que se estabeleceram na região, onde adotaram uma vida dedicada a lavoura e a espiritualidade e fundaram o Mosteiro Scala Dei (“Escada de Deus”) cujas ruínas e a atmosfera mística atraem turistas de toda a parte.

Foram séculos de produção vínica rudimentar, sem quaisquer investimentos e limitada às funções eucarísticas. Com a menor influência da igreja ao longo do tempo, vários vinhedos foram, pouco a pouco, sendo abandonados. Os produtores remanescentes encontravam-se desencorajados ao incremento qualitativo dos seus vinhos em função, sobretudo, do alto custo de se manter uma vinha em localização tão erma.

E pensar que até 20 anos atrás, a região nem sequer figurava entre as mais importantes da Espanha. A região é antiga, mas a sua reinvenção é recente. Isso se deu graças a coragem e ao talento de um pequeno grupo de enólogos que, em fins da década de 1970 encantaram-se com aquelas terras e vislumbraram a grande qualidade do cenário, empreendendo ali uma grande transformação.

René Barbier foi o protagonista dessa mudança. O jovem enólogo, enquanto desenvolvia um projeto pessoal no Penedès, visitou a região próxima e constatou o potencial de algumas vinhas centenárias lá plantadas. Barbier chamou, então, outros quatro enólogos para identificar quais eram os terrenos mais propícios. Eram eles: José Luiz Perez, Carles Pastrana, Daphne Glorian e Alvaro Palacios.

Os cinco enólogos estabeleceram-se no vilarejo de Gratallops. Cada um deles adquiriu aproximadamente 7 ha de terra, iniciou um delicado trabalho de reconstrução de seus vinhedos e começaram a cultivar em suas mais íngremes colinas. Introduziram novas técnicas de vinificação, assim como o uso moderado do carvalho.. Em suas 3 primeiras safras (1989-1991), juntaram suas uvas, compartilharam uma única adega e produziram um único vinho, vendido sob cinco rótulos diferentes. Ali nascia o moderno vinho do Priorat.

Os resultados foram, desde o início, surpreendentes e o reconhecimento não tardou; em 2000 o Priorat se tornou a 2a DOCa espanhola (Denominación de Origen Calificada), status compartilhado juntamente com a Rioja. Hoje, a região é berço de notáveis vinhos, alguns deles entre os mais desejados do país.

Foi Christopher Cannan, atual proprietário do Clos Figueras, à época dono de uma exportadora de vinhos franceses, quem catalisou a glória do Priorat, quando levou seus vinhos ao conhecimento de ninguém menos que Robert Parker. Depois disso, aquele remoto canto da Catalunha nunca mais seria o mesmo.

Localização

O Priorat faz parte da província de Tarragona, na comunidade autônoma da Catalunha e encontra-se há cerca de 140 km de Barcelona. tendo a Sierra de Montsant como seu limite noroeste.

DOCa Priorat

A região é constituída por 12 sub-zonas que abrangem 9 aldeias. Em La Morera de Montsant, El Lloar, Bellmunt e Poboleda encontramos sumos de boa estrutura e taninos, dentro de um perfil de mais rusticidade. Já os vinhos de Molar, Porrera, Torroja e Masos de Falset se notabilizam pelo frescor e alta acidez proporcionados por uma situação de maior altitude. Escaladei e Gratallops são conhecidas pela grande concentração e profundidade de seus caldos, enquanto na Vilella Baixa e Alta, a tônica é a elegância, com poucos taninos.

Em termos de castas, estas duas castas dividem a primazia como aquelas recomendadas, sendo responsáveis pela base dos blends e por cerca de 2/3 de toda a área cultivada. Dentre as autorizadas, estão Syrah, Cabernet Sauvignon, Merlot, Garnacha Peluda, Tempranillo, Picapoll Negre, Cabernet Franc e Pinot Noir. Há um crescente interesse pelas castas internacionais que vem ganhando cada vez mais espaço nos cortes.

Não há diferenciação entre recomendadas e autorizadas. Garnacha Blanca, Macabeo, Pedro Ximénez, Chenin Blanc, Moscatel de Alejandría, Moscatel de Grano Menudo, Blanquilla, Picapoll Blanc e Viognier são as variedades empregadas e respondem por menos de 4% da área plantada.

O terroir

A região é um enclave de pouco mais de 17 mil hectares onde, ao abrigo das montanhas à sua volta, isola-se da influência mediterrânea para performar microclimas secos, continentais, de grande amplitude térmica e índices pluviométricos inferiores a 400 mm.

A topografia irregular, onde encostas íngremes de etiologia vulcânica à altitudes que variam de 100 e 750 metros albergam grande parte dos vinhedos, parece ser decisiva. As melhores parcelas são aquelas cuja exposição solar respeita a orientação norte e leste, de menor intensidade que as demais.

Outro grande diferencial da região está em seu solo. Ali, uma formação rochosa quebradiça muito particular, resultante de um mix de argila e xisto vermelho com quartzo, conhecida como llicorella, se faz pródiga em reter o calor e armazenar a quantidade de água minimamente necessária para um ótimo amadurecimento das vides.

A região também é um verdadeiro santuário de vinhas velhas, muitas delas ao redor dos 100 anos, majoritariamente de Garnacha tinta e Cariñena.

Os melhores Priorat resultam escuros, emanam frutos vermelhos licorados, alcaçuz e uma bela mineralidade, destacando-se por serem potentes, concentrados, mas extremamente precisos e surpreendentemente frescos. Exigem boa dose de paciência e muitos anos em cave para que se expressem adequadamente. Confesso-me remetido a um estilo a meio caminho entre a potência e a fruta de alguns Châteauneuf-du-Pape e a mineralidade, elegância e precisão dos melhores tintos de mesa do Douro.

Trata-se, atualmente, de região de grande apelo e representatividade, estando, muitos de seus rótulos, entre os maiores nomes da Espanha.

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No dia 28 de Março de 2017, o restaurante Venga Jardim Botânico foi palco de um belo encontro ao redor do tema, quando alguns dos maiores ícones da denominação foram degustados à companhia da autêntica cozinha espanhola.

Cava Casa Real NV, Penedés:

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Entrada 1: Carpaccio de Pulpo al Jerez / Acústic Blanc 2010, Montsant

Entrada 2: Calçots y Romesco. 1o painel: “Todo o frescor de um dos maiores rótulos da sub-denominação já com boa guarda – para beber com grande prazer em um arrojado meridaje.

Cims de Porrera Classic Priorat 2005: 92 GGP

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2o painel: embate horizontal da Consecha 2008 entre dois dos maiores Gratallops: Clos Manyetes (Mogador, René Barbier) X Clos Figueres (Figueras, Christopher & Charlotte Cannan) – acompanham Manchego y tostadas; 

Clos Manyetes 2008: 91 GGP

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Clos Figueres 2008: 90 GGP

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3o painel: duelo vertical do ícone Doix: 2007 X 2010 (melhor safra da história da denominação) – acompanham Manchego y tostadas;

Mas Doix 2007: 92 GGP

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Mas Doix 2010: 97 GGP

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4o painel: “Porque o Priorato é o Priorato?” – dividido em 2 atos harmonizados:Plato 1: Arroz de Setas / Fra Gerau 2011, Montsant. Plato 2: Carrillera de Buey / Costers del Prior 2011;

Fra Gerau 2011

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Costers del Prior 2011

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Meditación, de postre: Royal Tokaj 5 puttonyos 2009

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PS: visando a melhor apreciação dos vinhos, algumas alterações foram feitas no menu regular da casa. Nosso grande agradecimento a toda a equipe Venga pelas gentis concessões as nossas demandas.

 

 

 

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