Porto & Douro Tasting, IVDP e Essência do Vinho

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco

Em evento que já é parte do calendário vínico brasileiro, o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e Porto), em associação com a empresa Essência do Vinho, promoveu sua Grande Degustação Anual.nos últimos dias 07 e 09 de Março, no Rio e em São Paulo.

Não restam dúvidas sobre a condição de Portugal, enquanto país vinhateiro, como uma das nações mais prolíficas em matéria de diversidade. Muito disso se deve à dádiva natural de possuir um dos maiores acervos biológicos em termos de castas, mas também a todo um mosaico de influências culturais e colonizações que permearam essas terras ao longo dos muitos séculos desde que a cultura da vinha ali se estabeleceu.

O Douro, sua mais tradicional denominação, multifacetado por excelência, pleno de feitios e identidades não é apenas um micro-cosmo de toda esta tão apregoada “multiplicidade vínica nacional”, mas a mola-mestra de toda esta atitude.

Não me deixa mentir o fato de que não são muitas as regiões vinícolas mundo fora que podem ostentar o bem-sucedido encargo de produzir dentro dos mesmos limites tão vasto leque de estilos, desde delicados espumantes de suas altas parcelas e frescos brancos tranquilos, até tintos de mesa de classe internacional e vinhos como o Vintage, dos mais concentrados sumos de que se tem notícia (à par de toda a pluralidade na qual o Porto, em si, já se constitui).

O vale por onde serpenteia aquele rio, seus braços e afluentes, exposições e altitudes é, ainda, abençoado por outro invejável e singular patrimônio, verdadeira instituição: as vinhas velhas – uma excentricidade (mais uma!) encontrada em pouquíssimos cantos do globo e que ali, além de toda a questão histórica, é capaz de gerar sumos singulares e de grande caráter.

São tantas as vicissitudes que norteiam o Douro que parece-nos mesmo minimalista reduzí-lo ao clichê de “única região do mundo onde generosos e vinhos de mesa compartilham das mesmas fronteiras legais”.

É à custa do trabalho árduo de gerações e de todas as esferas de atuação, do campo às prateleiras, que o percurso destes vinhos tem sido brilhante, tanto à custa dos já há muito afamados Portos quanto, mais recentemente, de estrelas líquidas ascendentes, na qual se constituíram muitos de seus rótulos de mesa.

Mas se o Douro tem uma imagem externa justificadamente esplendorosa, isso se deve quase que exclusivamente a vinhos notáveis em seus segmentos superiores. Infelizmente, no que se refere ao grande contingente, a qualidade média dos seus vinhos ainda está muito longe da excelência, tendo muito a galgar dentro de suas respectivas propostas – e é aí que a grande prova parece entrar!

Deliberadamente concebida para atiçar e promover toda esta pluralidade, dentro de uma importante premissa de qualidade, é motivo de orgulho poder experienciar o tão salutar encontro do novo com o antigo, o enfrentamento entre o classicismo e a tecnologia, duelos conceituais entre rusticidade e finesse. tudo isto, em tão curto espaço físico e de tempo! Saudemos o IVDP e a EV pela iniciativa.

Simplificar o universo daquilo que provamos em uma pequena lista de melhores seria justo, mas indócil, mesmo porque, a feira não está calcada na exposição de topos de gama. Por isso, optamos por elencar aquilo que de mais interessante percebemos, dentro de uma proposta de novidade e boa relação preço-prazer.

Ao melhor estilo “Top 10 Boa Compra” está aí a solução encontrada para que possamos debriefar o evento mitigando eventuais injustiças.

Em nossa lista, constam 2 brancos, 5 tintos e 3 fortificados, numa clarividente referência ao modus operandi da Vinhos de Portugal em sua eleição anual dos Top 10 portugueses, guardadas as devidas proporções.

Desculpamo-nos, desde já, pela qualidade da documentação fotográfica aquém do habitual por aqui – em função da falta de nossos colaboradores, lançamos mão de um registro, digamos, improvisado. E vamos aos 10 vinhos.

Em Prova

Brancos

Cerro das Mouras Grande Escolha 2011: 92 GGP

Corte de castas brancas durienses com 6 meses de barrica. Aqui, o perfil é notadamente fresco, com os frutos de caroço e os cítricos amarelos e algo doces a sendo adornados por certa mineralidade, que parece ter vez sobre uma não mais que leve percepção da barrica. Boa estrutura, linda acidez, corpo moderado, caráter distinto, final instigante. Um branco fora da curva. 13,5%. Importador: Duomo. R$ 135,00.

 

 

Quinta do Cume Reserva Branco 2013: 90 GGP

Com cerca de 80% de Malvasia fina e passagem de 1 terço em barricas de carvalho por 8 meses. Frutas brancas, boas leveduras, baunilha, amendoados e cítricos maduros. Boca volumosa, perfil amanteigado e acidez suficiente para sustentar todo o conjunto. Final amplo, levemente esfumaçado que lhe cai muitíssimo bem. 13%. . Importador: Jobtotal. R$ 140,00

 

 

Tintos

Quinta Dona Leonor 2011: 91 GGP

Média gama deste ainda pouco badalado produtor do Cima Corgo, surpreende pela exuberância da sua fruta em bagos maduros pisados, permeada por tons florais, folhas de tabaco e toques xistosos. Entrada gentil, moderado em sua estrutura, ótima percepção de frescor da fruta e acabamento sutilmente defumado agregando complexidade. Verdadeiro (vinho para o) “dia-a-dia, de luxo”. 14%. Importador: Duvallley. R$ 80,00.

 

 

Quinta Nova Collection 2014: 89 GGP

Média gama da Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo. Na difícil safra de 2014 é austero, com a fruta negra compotada contida, escoltada por nuances herbáceas e especiadas, que se abrem aos poucos. Encorpado, barrica de bom tom, mid-palate de boa intensidade, com tudo no seu devido lugar; muito foco, bom comprimento e ótima persistência. 14%. R$ 140,00

 

 

 

Quinta dos Avidagos Reserva 2015: 89 GGP

Elegância na fruta encarnada, fresca e sutilmente temperada por um atraente aroma de forno à lenha. Envolvente, o palato é sustentado por uma acidez à feição e que remete à algo de clima mais frio expressando seriedade e finesse. Final médio, com, novamente o fumé a agregar algum charme. 13%. Sem importador. R$ 140,00

 

 

 

Gloria Reserva 2013: 89 GGP

Frutos vermelhos e negros pisados, azeitonas e pimentas pretas num estilo algo apelativo. Bom corpo, boca macia, apimentada, acidez provocativa, taninos razoavelmente prontos, já denotando qualidade. Fácil de encantar, perfil consensual mas muito prazenteiro. Bom final. 13,5%. Importador: Jobtotal. R$ 90,00.

 

 

 

 Vale de Cavalos 2014: 90 GGP

Proveniente de um talhão de 20 anos no Douro Superior. O meu amigo Pedro Poças Pintão se orgulha muito desta vinha na Quinta das Quartas. Tonalidade rubi escura e opaca. Cerejas e framboesas maceradas, entremeadas por especiarias e uma boa nota de violeta. Vivo, taninos a caminho da polidez, alguma agressividade, acabamento algo quente com a barrica ainda a dar o tom,. Vai melhorar com mais um par de anos em cave. Importador: Cantu. R$ 115,00.

 

Generosos

Dalva Porto Branco: 91 GGP

Dalva é um grande produtor de portos Colheita e talvez o melhor de portos branco. Este sem data é acessível e entrega bastante informação, podendo-se dizer assim até algo complexo! Damascos ressequidos, marmelada e cream brûlée são a tônica de um nariz amplo e cativante. Untuosidade muito bem ajustada ao frescor, toques especiados, longo e meditativo. Importador: Zahil. R$ 140,00.

 

 

 Croft Fine Ruby Port: 88 GGP

Nestas provas ao grande público, sempre hão de chover Portos Ruby… então, vamos a eles! O Ruby “genérico” da Croft foi o melhor disparado de toda a prova, a fruta exuberante, mas bem balanceada por uma vívida mineralidade, remetendo divinamente aos terrenos xistosos de seus encalços. Muito equilíbrio, taninos sedosos e lonjura surpreendente, com final prazerosamente fresco. 20%. Importador: World Wine. R$ 75,00.

 

 

 Fonseca Porto Bin 27 Finest Reserve: 91 GGP

Vintages-like (Character) estão em alta entre os grandes produtores. A referência é a concentração dos seus top-congêneres e a proposta é preencher a lacuna de mercado situada mais ou menos entre os Ruby e os LBV. Este aqui é retinto, com ameixas em calda, amoras licoradas e alcatrão dominado o olfato. Sua boca é pujante, larga e o passo é ascendente, mas sempre com a boa acidez em contraponto. Caudaloso e com ótima persistência, rebatendo ao palato algo de esteva e pelica. 20%. Importador: Decanter. R$ 160,00.

 

Agradecimentos e reconhecimentos: ao IVDP, à Essência do Vinho e a Antonio Vitarelli por sua colaboração na eleição dos vinhos.

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