“Do outro lado do rio” – toda a essência de Saint-Émilion

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco. Fotos: Rogerio Felicio e Helio Pio.

Introdução e História

É provável que seja Saint-Émilion a mais antiga região produtora de vinhos de toda Bordeaux. Com uma história que remonta aos idos dos antigos romanos, é fácil esbarrar em ruínas do período espalhadas pela denominação.

A área e a cidade tomam o nome emprestado de um monge beneditino, Emílio, que ali viveu e foi o responsável pela edificação da emblemática igreja situada bem no coração do village. Poucos séculos antes, entretanto, teria sido outro ilustre residente, um certo cônsul com veia poética, o personagem que de fato merece destaque pela sua singular devoção ao vinho local, seu nome: Maximus Decimus Ausonius ou, simplesmente, Ausone!

Maximus Decimus Ausonius, ou simplesmente Ausone

Saint-Émilion e sua onipresente igreja monolítica

Já no século XIV, sua condição de porto natural à beira rio, aliada à já relativa maturidade vitivinícola (em detrimento de uma atividade um tanto incipiente e desorganizada no Médoc) foram determinantes para que a região se tornasse a primeira a exportar vinhos para a Inglaterra, sob o tronado do então rei Edward. A época também foi marcada pela fundação, pelos ingleses, da cidade mercante de Libourne.

Saint-Émilion também reclama pra si a proeza de ter constituído a primeira confraria de que se tem notícia, com a fundação da Jurade de Saint-Émilion datando do ano de 1199. Composta essencialmente por propriétaires, négociants e outros benfeitores da vitivinicultura local, segue mais viva do que nunca, com seus mais de 3000 associados engajados também na divulgação da apelação.

Turismo

Apesar de eminentemente vinícola, Saint-Émilion apresenta grande apelo turístico. Percorrendo seus calçamentos de pedra seculares entre suas vielas e claustros medievais e com uma paisagem estonteante ao seu redor, o (eno)turista pode facilmente perder-se por suas dezenas de lojas e boutiques dedicadas ao vinho.

Por tudo isso e mais um pouco, Saint-Émilion é hoje uma cidade protegida, tendo sido, toda a sua jurisdição e entorno reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1999.

Terroir

Notadamente sob menor influência marítima do que o Médoc, o clima em Saint-Émilion apresenta-se menos temperado, mais seco e com gradientes mais amplos de temperatura.

No que diz respeito aos solos, são variados, com a presença de inúmeros tipos de terrenos; dos arenosos próximos ao rio, aos calcários e rochosos sobre os platôs, passando por diversas formas de aluviões nas encostas, as quais se destaca a argila, não sendo incomum a ocorrência de distintos perfis dentro de um mesmo Château.

Os vinhos (“manual de instruções”)

Os vinhos de Saint-Émilion são mesmo bem diferentes dos do Médoc, principal sub-região de Bordeaux, à margem esquerda do rio – lá, a Cabernet Sauvignon dá as cartas. Na margem direita (da Gironde), assim como majoritariamente em toda Bordeaux, será a vinha de Merlot reinante, com importante presença da ancestral e aromática Cabernet Franc nos assemblages.

Dito isto, os vinhos de Saint-Émilion serão, portanto, mais fáceis de beber, redondos, macios, mais quentes e frutados e com amadurecimento, em geral, mais temprano do que os “margem esquerda”.

Classificação Grand Cru Classé Saint-Émilion

A região ficou de fora da histórica classificação de 1855 não emplacando nenhum representante dentre todos os níveis de ordenamento – à época importantes Châteaux como Cheval Blanc e Ausone já ostentavam grande reconhecimento.

Foi somente um século mais tarde, no ano de 1955, que seus produtores se reuniram em torno da causa e resolveram elaborar sua própria estratificação.

Em um formato tido por muitos como bem próximo do ideal, leva-se em consideração não somente a reputação e o valor dos vinhos de determinado Château, como também a qualidade e a consistência do vinho nele produzido, ano após a ano, safra após safra, numa clara e evidente crítica a monotonia estática de sua congênere do outro lado do rio.

A cada 10 anos, a classificação deve ser revista, havendo a possibilidade real de elevação ou rebaixamento de determinado produtor dentro de seus patamares de distinção.

Os níveis são assim dispostos, em ordem decrescente de qualidade: Premier Grand Cru Classé A, Premier Grand Cru Classé B (com uma tendência “consentida” por parte dos produtores do nível B em omitirem esta letra em seus rótulos), Grand Cru Classé e Grand Cru.

Atualmente, após a última (e polêmica) revisão, perpetrada no ano de 2012, a classificação apresenta 4 Premier Grand Cru Classé A, com Cheval Blanc e Ausone mantendo-se no topo da pirâmide, mas agora acompanhados de Angelus e Pavie.

O nível seguinte, o de Premier Grand Cru Classé B, apresenta 14 Châteaux. São eles: Beauséjour (Duffau-Lagarrosse), Beau-Séjour Bécot, Bélair-Monage, Canon, Canon-la-Gaffelière, Figeac, Fourtet, La Gaffelière, Larcis,Ducasse, La Mondotte, Pavie-Macquin, Tropolong Mondot, Trotte Vieille e Valandraud.

Um pouco mais abaixo na estratificação, outros 63 produtores recebem a designação Grand Cru Classés.

Finalmente, cabe mencionar que a designação pura e simples “Grand Cru”. é atribuída a mais de duzentos outros Saint-Émilion que seguem as regras básicas da denominação e não fazem parte da classificação formal de 1955. Os vinhos desta categoria não são considerados de qualidade comparável a dos Grand Cru Classés.

Safras

Em tempos recentes, as melhores safras na apelação foram 1982, 1990, 1998, 2000, 2001, 2003, 2005, 2009, 2010 e 2015. Também foram boas: 1983, 1986, 1988, 1989, 1995, 1996, 1999, 2006.

Em Prova

Realizamos 2 provas distintas acerca do tema. Na primeira delas, como uma espécie de introdução, a abordagem se deu em formato de mini-vertical, com a apreciação de 3 safras do Château Fleur Cardinale, emergente produtor da categoria Grand Cru Classé.

Na segunda etapa estavam os 4 Premier Grand Cru Classé A mais 2 dos melhores Premier Grand Cru Classé B escalados para um tasting em formato de duelos, quando, ao melhor estilo “Saint-Émilion para maiores”, pudemos perfilar taças com os melhores conteúdos da apelação – simplesmente memorável!

“Saint-Émilion I: Intro com vertical do Château Fleur Cardinale”

31 de Janeiro de 2017, Fogo de Chão Botafogo

Na primeira prova, os trabalhos foram abertos com um invulgar branco sob a indicação de procedência Bordeaux Blanc – brancos de Saint-Émilion assim devem ser rotulados.

Château de la Riviere Blanc 2014, AOC Bordeaux: 88 GGP

Amarelo-palha límpido, dominado por frutos amarelos cítricos e maduros com discreta tropicalidade, secundados por florais e toques de relva molhada. Frescor, vivacidade e alegria são a tônica em um palato não menos aromático, vivo e muito refrescante. 12,5%.

 

Após a instrução, foram degustadas 3 safras do Grand Cru Fleur Cardinale (2007, 2008 e a histórica 2009).

Cabe ressaltar de ante-mão que, não bastasse evidenciar as marcantes diferenças entre as garrafas das distintas colheitas, muito além, teriam as mesmas trabalhado à mesa de forma bem peculiar, cada uma à sua maneira, encontrando seu par ideal com distintos cortes de assados.

 

Château Fleur Cardinale 2007: 88 GGP

Vermelho ainda intenso, halo granada evoluído acusando a idade. Framboesas frescas, terrosos, sugestões de couro fino e alguma trufa emoldurados por um belo mentol. Ataque fresco, médio a bom corpo, leve perda de tônus no mid-palate, taninos resolvidos, boa persistência. 13%.

Château Fleur Cardinale 2008: 90 GGP

Núcleo rubi escuro, muito brilho, algo translúcido. Frutas vermelhas frescas, notas florais e certa mineralidade em um sintomático nasal de safra fria. Redondo, tenso, acidez cândida, taninos já aveludados e de grande finesse, final mineral agregando complexidade. Um Saint-Émilion de enciclopédia desfilando com elegância. 14%.

Château Fleur Cadinale 2009: 92 GGP

Vermelho muito profundo. Aqui a expressão da fruta é explosiva; com cerejas, ameixas e amoras escuras, maduras, licoradas e eloquentes, permeadas por uma barrica luxuosa e um algo exótico de mocha, especiaria e alcaçuz. Pleno, exuberante mas mantendo certa delicadeza, palato vincado na fruta, pós-boca rico e bem especiado. 15%.

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“Saint-Émilion (II): Saint-Émilion para maiores”

7 de Fevereiro de 2017, Rubaiyat Jockey Club

Garrafas dos 4 Premier Grand Cru Classé A e de mais 2 dos melhores Premier Grand Cru Classé B foram vertidas e postas lado a lado em prova nesta (memorável) oportunidade.

A recepção seria à altura e esteve à cargo de uma Cristal 2009 o ofício de entreter-nos durante a exposição em mídia da história detalhada de cada um dos châteaux a serem apreciados.

O tasting foi esquematicamente dividido em etapas compatíveis com o perfil dos vinhos, levando-se em consideração sobretudo safras, tempo de guarda e estrutura/perfil de cada um dos vinhos.

Desta forma, entre aqueles que guardavam mais anos em garrafa, opusemos Ausone 1981 a Figeac 1986.

Château Ausone 1981: 88 GGP

Grená pálido com tons acastanhados acusando o passar dos anos também em sua claudicante fruta negra seca, performando bem a proposta de uma respeitosa garrafa antiga, dispondo de toda sorte de sutilezas, como as das folhas secas, das poeiras, das pelicas e dos grafitados, embora relativamente efêmero nos aromas. . Ainda altivo na acidez, taninos vestigiais, à boca, sobrava uma agradável e convidativa untuosidade. 13,5%.

 

Château Figeac 1986: 88 GGP

Surpreendeu, pois um grená de media tonalidade com halo alaranjado acusava uma avançada idade que o nariz tratava de (tentar) desmentir com o fulgor de uma acidez volátil e um refrescante “vinagrinho”, logo seguido por fragrantes ameixas e cerejas vermelhas frescas sobre caixa de charuto e sugestões de estrebaria. Não menos vivo em boca, taninos resolvidos, porém com certo descompasso do meio pro fim, palato quente, percepção de álcool e pouca lonjura. 14%

 

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Posicionado a um tempo digamos intermediário, isolado e sem a pretensão de combater com taça alguma a seu lado dado o perfil, estava…

Château Valandraud 2001:92 GGP

Cório rubi escuro e opaco, reflexos violáceos. Num perfil de fruta exuberante com geleias de cassis, amoras, ameixas e framboesas a dar e vender, permeadas por pimentas especiarias doces e alcaçuz, tudo empacotado por uma marcante barrica de seu estágio de 30 meses! Encorpado, texturado, denso, vertical, evolui em camadas densas e preserva boa tensão durante toda a prova; a concentração da fruta encontrando perfeita sintonia com a intensidade da barrica até a sua cauda longa e espessa. 14,5%.

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No painel horizontal, entre 3 dos 4 Premier Grand Cru Classé A (já que Ausone já havia sido apreciado lá atrás, em função de sua mais longa guarda) tivemos um trielo entre Angelus, Cheval Blanc e Pavie.

 

Château Angelus 2006: 96 GGP

Vermelho-rubi intenso, com uma conjugação perfeita de fruta negra madura, e elegantes empireumáticos ao nariz como a tosta e o café, mais um requintado grafite ao fundo. Seguia-se uma boca plena mas divinamente classuda e profunda, com taninos largos e macios, acidez de belo efeito e uma dramática evolução em camadas dando espaço gole a gole a uma gama crescente de informações. Persistente, reticente, marcante, finda sofisticado e especiado. 14%.

 

Château Cheval Blanc 2006: 92 GGP

Rubi escuro, reflexos violáceos. Um autêntico mas ainda pouco eloquente Cheval, discreto na fruta, salpicado por umas poucas ervas frescas e abraçado por suas típicas notas calcárias, Em boca entrega-se com mais raça, acidez sobrando, perfil agudo, vivaz e incisivo, taninos rugosos e evidentes, final fresco e com bela sensação mineral. Tem bons anos em cave pela frente. 14%.

 

Château Pavie 2006: 95 GGP

Vermelho denso, retinto e opaco. Generosamente frutado, concentrado já ao nariz em bagos de pequenos frutos silvestres escuros, muito maduros e pisados que se deixam seguir por cravos, pimenta negra e tostados de muito bom tom. Bastante volume na boca, carnudo, taninos adocicados, sempre com enorme intensidade de fruta, é intenso, suculento e largo. 14%.

 

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Para o jantar, sob o pretexto de comungar com as texturas de uma das macias especialidades da casa, o Tender beef, um petit duelo entre 2 Grand Cru Classé da histórica vendange 2009.

Château La Dominique 2009: 90 GGP

Rubi de média tonalidade, translúcido. Descortina-se em frutas vermelhas frescas atreladas a uma instigante nota de cal e um sutil floral. Boa estrutura, muita vivacidade em boca, taninos firmes, ainda com arestas, num estilo fresco e limpo. Interessante acabamento salino, embora não particularmente longo. 14%.

 

 

Château Villemaurine 2009: 91 GGP

Vermelho rubi escuro, algo translúcido, entregando sedutoras notas de fruta negra madura e especiada, com toques herbáceos e de cedro. Palado muito redondo e equilibrado, apresenta taninos polidos, ótima trama entre a fruta e a barrica e um caudelie adocicado muito bem contextualizado. Prazeroso. 14%.

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Só para não dizer que não falamos de flores, encerraríamos a noite, como costumeiramente, com a graça de um Premier Grand Cru Sauternes, desta vez…

 

Château Guiraud 2001: 95 GGP

Amarelo dourado de média tonalidade, tendendo ao caramelo.Transpira maçãs assadas mescladas a botrytis e damascos maduros. Excelente concentração, encorpado, escorregadiço ao passo de um mel que soa picante e privilegia muito mais a oleosidade à acidez. Finda carregado de botrytis. Para o desfrute imediato. 14%.

 

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Reconhecimento: sommeliers Amaury Santana (Rubaiyat) e Ricardo Pikula (Fogo de Chão).

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