Grande Prova de Premiers Grand Cru de Bordeaux

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco; Fotos: Francisco Carneiro e Rogerio Felicio.

Em qualquer região do mundo vitivinícola, estabelecer uma ordenação qualitativa e criar um status hierárquico entre vinhos, vinhedos e produtores é tarefa invariavelmente complexa e potencialmente polêmica.

Foi justamente isso que, não sem boa dose de controvérsia, mas com um sucesso sem precedentes, a histórica Classificação de 1855 logrou fazer, ao empreender a mais respeitada, duradoura e famosa estratificação até hoje.

Estar na lista, por si só, já é sinal de grande relevâncial, independente dos 5 níveis decrescentes de Premier a Cinquième Cru em que está categorizado determinado Château. sobre a classificação, leia mais aqui.

Persistem inúmeras contestações aos critérios e a temática segue em alta, mas, se existe algo dentro da referida seriação centenária que parece caminhar para um relativo consenso é justamente o seu primeiro e mais alto nível, seus 5 vinhos e Châteaux.

É verdade que algum farfalhar se ouviu por ocasião da elevação do Château Mouton-Rothschild de Deuxième a Premier Grand Cru em 1973 por meio de decreto presidencial de Charles de Gaulle, que, não bastasse, ainda deferiu a honraria em caráter retroativo à 1855. Mas a consistência e a qualidade de Mouton desde sempre e sobretudo a partir dali, logo trataram de o (re)afirmar como sim, merecedor do primeiro patamar.

Château Margaux, Château Lafite-Rothschild, Château Latour e Château Haut-Brion são aqueles que ao lado do Château Mouton-Rothschild ostentam a distinção-mor de pertencer ao seleto grupo dos Premiers Grands Crus (PGC), os melhores entre os melhores.

Sacar a rolha de um PGC da Classificação de 1855 é mais do que especial, é estar diante de vinhos cuja história, a reputação e a ordem de grandeza parecem-nos totalmente distintas a da dimensão em que vivemos.

O que dizer então da oportunidade de tê-los, lado-a-lado em uma prova com todas as garrafas ao redor de 4 décadas de guarda.

A memorável ocasião se daria no dia 29 de Agosto de 2016, numa nada triste Segunda-feira. Quatorze degustadores do mais alto alto nível não puderam resistir e tiveram toda a tradição, reputação e consistência de Lafite, Margaux, Haut-Brion, Mouton e Latour diante de si em uma série interminável de desafios sensoriais em cada uma de suas 5 taças.

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O salão foi aberto aos convivas e não havia forma melhor de lhes aplacar a sede do que uma recepção com um Champagne de uma grande maison. Garrafas de Kreuz non-vintage se encarregaram de fazê-lo com particular requinte, preparando as papilas para o vindouro deleite.

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Na sequência, tão logo tomaram assento, os presentes puderam degustar um dos mais célebres brancos de Pessac-Léognan, quando um Mallartic Lagravière 2004 entrou em cena e se encarregou de escoltar magistralmente uma frugal salada verde com leve toque cítrico, enquanto se iniciava a exposição detalhada de cada um dos 5 Châteaux em seus vinhos, propriedades e em toda a sorte de pormenores e curiosidades que marcaram suas longas histórias.

 

Château Malartic-Lagravière 2004

Amarelo-palha de média tonalidade, reflexos dourados. Mostra estilosas flores brancas com a fruta limonada pura da Sauvignon bem definida, seguida de pêssegos, amêndoas, leveduras e um leve toque de pederneira. O ambiente em boca é de frescor com muita fruta amarela carregada por uma sedutora untuosidade. Amplo, tem bom comprimento e um acabamento finamente mineral. 89 GGP

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“A Grande Prova”

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Procedência

Todas as 5 garrafas dos PGC remontando à nada fácil década de 1970´s foram arrematadas em Abril de 2016 em uma leilão público da municipalidade de Bordeaux – não se pode negar que pairava no ar alguma dose de apreensão no que concerne ao status de conservação de cada um dos frascos, apesar de todas as garantias fornecidas pela instituição francesa. Não obstante, as demais garrafas, inclusive a de Yquem 1990, foram, todas, adquiridas em seu país de origem, com destaque para a participação decisiva do enófilo Marcus Vinícius Verol na obtenção do frasco do referido 1er Cru Supérieur Classé de Sauternes.

O Serviço

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Não costuma mesmo ser tarefa das mais triviais o irromper de garrafas com guarda ao redor das 4 décadas. Para tal, há que se estar devidamente habilitado e preparado. Foram necessários saca-rolhas tradicional (apenas para a garrafa de Haut- Brion 1976), saca-rolhas em pinça (ou lâminas) para todos os demais e salva-rolhas para o tratamento de 2 das 5 garrafas (Lafite 1974 e Margaux 1978), cujos vedantes, friáveis ao sabor do tempo, sucumbiram ao interior de seus vasilhames.

Em respeito à premissa da volatilidade de determinados aromas terciários e sua consequente fugacidade, procedemos ao início do desarrolhamento dos frascos com apenas 30 minutos de latência para o exato momento do serviço de todas as taças à mesa, obedecendo ordenamento consoante critério técnico de conhecimento prático e  geral dos Châteaux e estudo prévio teórico das particularidades de cada um dos seus representantes em suas respectivas safras.

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Assim, a abertura se deu sob a seguinte sequência: 1o: Château Latour 1975; 2o: Château Mouton-Rothschild 1978; 3o: Château Haut-Brion 1976; 4o: Château Margaux 1978, 5o: Château Lafite-Rothschild 1974.

Todos as 5 garrafas foram submetidas à dupla decantação e, voltando a seus frascos, seriam vertidas sob filtro-funil em cada um das taças, respeitando-se a mesma ordem de abertura para o serviço em taça, realizado em sequência (Latour, Mouton, HB, Margaux, Lafite).

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Todas as 5 taças foram disponibilizadas ao mesmo tempo para cada degustador sobre caboutages (sous-verre) personalizados com nicho ilustrado para cada um dos vinhos.

Debriefing dos Vinhos

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Château Lafite-Rothschild 1974

Garrafa, rótulo e cápsula em razoável estado de conservação, bom preenchimento para a idade, na base do pescoço. Rolha embebida e desintegrada, porém, sem vazamentos. Líquido com pouco sedimento.

Surge em veste vermelho-telha pálido e límpido, envolto em halo tawny.  Um nariz de perfil essencialmente medicinal evoca um molho balsâmico temperado por sugestões sutis de própolis, cânfora, gengibre e iodo e, ainda, cola, galhos secos e alguma fruta cristalizada. Taninos inteiramente resolvidos, acidez vestigial, sereno, resulta bastante delicado em um corpo leve, afinado, algo desafiante. Afastado do pico, à caminho da decrepitude, mas ainda longe do seu fim. 89 GGP

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Château Margaux 1978

Garrafa, rótulo e lacre em ótimo estado e com bom nível. Rolha friável, sem vazamentos, porém em mau estado de conservação em seus dois terços. Muito sedimento.

Apresenta-se em um vermelho-grená escuro, com tons atijolados nos bordos, algo translúcido. Notas envelhecidas de cinzas de cigarro, cedro, em meio a bagas vermelhas maduras, figos secos, um toque especiado, leve couro e um discreto apontamento floral à violeta fugaz de início e mais perceptível com a evolução em taça. Ataque razoável, perfaz um passo amplo, sedoso e untuoso, boa percepção de camadas, mas acusando cansaço do meio de boca em diante; termina elegante e volumoso, embora um pouco lacônico. 89 GGP

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Château Haut-Brion 1976

Garrafa em bom estado, rótulo com mínimas imperfeiçoes, lacre preservado, rolha em ótima condição.

Tingido de um vermelho-acobreado, com reflexos rubi claro a meio caminho da opacidade. Notas explícitas de cerejas pretas divinamente amadurecidas rendilhadas em fumados de bacon e tabaco dominam o nariz, enfatizadas por cogumelos, terra molhada, salmoura, pimenta negra e couro. Rugosidade fina e concentração com classe são apadrinhadas por uma generosa acidez que lhe aviva todo o conjunto. Final intenso, nobre e evocativo, com grande evolução em taça durante toda a prova. Ainda com bons anos em garrafa. 94 GGP

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Château Mouton-Rothschild 1978

Garrafa em boa forma, rótulo e lacre íntegros, bom preenchimento; cortiça preservada, umedecida ao seu terço. Coletadas as borras que estiveram de média monta.

Coloração vermelho-acastanhado, circundado por matizes granada. Etéreo, sisudo, requer tempo em taça para que revele ameixas e cassis maduros, alcaçuz, terrosos, madeira de pinho e sugestões cozidas. Desvenda taninos firmes, estrutura mediana e acidez não mais que bastante a contrapor um palato que se desejava mais concentrado e incisivo, com o carvalho aparente, agradavelmente picante mas não totalmente integrado; o prolongamento de boca se dá à custa de um muito bem-vindo rebote de melaço. 88 GGP

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Château La Tour 1975

Garrafa em bom estado, rótulo com algumas máculas, lacre preservado. Rolha em estado avançado de deterioração até a sua metade, mas sem sinais de escape. Importante quantidade de sedimentos.

Não esconde uma cor vermelho rubi escuro em seu cório circundado por uma anel grená. Admirável diante da sua idade, isso porque ninguém lhe dá 41 anos. Muitos outros já estariam a definhar, mas aqui, segue em sua fase adulta, ainda maduro, cheio de vigor aromático, com um intenso fruto negro licorado a protagonizar, seguido de cedro, trufas, chá preto, pelica, especiarias doces como canela e toques de carne assada. Num estilo mais encorpado, carnudo e volumoso, chama atenção pela sua dimensão, com taninos granulados espalhando a fruta em um palato picante e cheio de tensão, crescente em camadas e interminável em seu espesso acabamento. 96 GGP

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Ao jantar, para a escolta de um autêntico entrecôte, lançamos mão do 5ème Cru Saint-Julien…

Château Talbot 2011

Vermelho rubi de boa tonalidade, reflexos violáceos. Bonito nos aromas resguardados de uma fruta negra madura delicada, permeada por especiarias e finas notas herbáceas, barrica na dose certa, tudo em bom plano. Bom corpo, taninos sólidos, estrutura firme e final médio, com sugestões salinas que lhe agregam valor. Eleva-se à mesa ao sabor de carnes grelhadas de contida gordurosidade. 88 GGP

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Château d’Yquem 1990

Irradiante e impressionante, verdadeira luz dourada-alaranjada em taça. Eloquente e excepcionalmente doce já nos aromas, descortinando-se em botrytis entremeadas por laranjas cristalizadas, mel, pêssegos, peras, damascos, coco, flores brancas, tâmaras, amêndoas, cítricos maduros, erva cidreira. baunilha, querosene, manteiga, tosta, maresia. Sua viscosidade é comovente e se vê equilibrada por um frescor sem fim proporcionado por uma acidez irrepreensível; o que dizer do final de boca, enorme no comprimento – e no sentimento? Dispensa acompanhamento; apenas tempo e uma confortável cadeira de braços para saboreá-lo. 99 GGP

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Participaram da prova: Alexandre Braga, Antonio Martins Pacheco, Daniel Azevedo, Elisabeth Cascão, Francisco Carneiro, Frederico Fischer, Frederico Wright, Gloria de Moura, Jeferson da Cruz, Luiz Octávio Monteiro, Marcus Verol, Maria Aglaé Tedesco, Pedro Sada e Rogerio Felicio.
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