“1855, a Classificação”

por Gustavo Guagliardi Pacheco

Boa parte da reputação do vinho bordalês se estabeleceu durante o domínio inglês, a partir de 1152. Com o casamento de Eleonora de Aquitânia com Henrique II Plantageneta, rei dos ingleses e duque da Normandia, a região, assim como boa parte do oeste da França, ficou separada do restante do país e foi incorporada à rota mercante do império britânico.

A reconquista da região pela França, em 1453, marcou o fim do domínio britânico (à esta altura, o “claret” – nome dado pelos ingleses ao sumo de coloração rubi clara – já havia conquistado uma bela reputação)  e abriu espaço para prósperos comerciantes holandeses, que passaram a operar na região; foram eles, com seu expertise em canais e estuários, que no séc. XVII empreenderam a drenagem dos pântanos que dominavam a paisagem do Médoc, permitindo a ocupação das terras por vinhedos.

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Port de Bordeaux, Edouard Manet

Classificando Bordeaux antes de 1855

Podemos considerar que, extra-oficialmente, os vinhos bordaleses já eram, há muito classificados por seus devotos consumidores desde o início do século XVII, época em que começou a ser exportado para outras nações.

Naquele primeiro momento, os compradores buscavam vinhos da procedência Bordeaux como um todo. As primeiras propriedades a ganharem uma espécie de atenção mais específica dos consumidores pela qualidade de suas garrafas eram os châteaux Lafite, Latour, Margaux e Haut-Brion. A notoriedade e a fama precoce destes 4, os colocou em um patamar de distinção por comerciantes e negociantes, alçando-os a uma condição de preço, já a partir daí, sensivelmente superior aos demais.

O movimento seguinte na direção da elaboração de uma classificação se deu quando os vinhos começaram a ser rotulados e vendidos como sendo de uma denominação mais específica, numa clara tendência de se valorizar esta ou aquela procedência.

Desta forma, comerciantes e negociantes passaram a ostentar Pauillac, Margaux, Saint-Julien, Saint-Estèphe e Graves em seus rótulos. Fato interessante é que, no caso de Haut-Brion, este “puxou” a região, pois foi devido à sua fama que compradores passaram a se interessar por vinhos oriundos da área de Pessac.

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“A Escala Thomas Jefferson”

Durante sua visita a Bordeaux em 1787, o então embaixador dos Estados Unidos na França, Thomas Jefferson listou seus vinhos preferidos e, desta forma, criou sua própria classificação. No topo de sua predileção estavam o que hoje conhecemos como Premiers Grand Crus. Jefferson classificou os vinhos do Médoc como um todo, privilegiando a qualidade do que cada Château fazia em detrimento de sua localização. Foi dele também a ideia de estratificação, que neste caso se deu em três categorias, algo que pode ser considerado como espécie de rascunho para a futura classificação em 5 níveis de Crus.

A partir daí, outros influentes degustadores como André Simon em 1800, Guillaume Lawton de Tastet em 1815, Wilhelm Franck em 1845 e Cocks / Feret em 1850 estabeleceram, cada um, o seu próprio ranking. Não bastasse, uma vasta produção literária sobre o tema da qualidade dos vinhos de Bordeaux passou a estar amplamente disponível.

Oficialmente, a primeira classificação de Bordeaux ocorreu em 1740, ela se deu apenas para fins fiscais e foi publicada pelo Intendant Boucher. Como ponto de referência, mais de 50% dos châteaux listados na Classificação de 1855 já figuravam no documento de 1740, que continha 75 produtores numa clara demonstração de que muitos daqueles vinhos que hoje temos no topo de nossas listas, não são muito diferentes do que eram centenas de anos atrás.

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Expo de Paris 1855: oportunidade de negócios para o Bordeaux

Necessidade + oportunidade = realização

A partir da segunda metade do século XIX, observou-se um importante crescimento no número dos châteaux vinícolas na região. Fato que, infelizmente, não teria sido acompanhado na mesma proporção na qualidade do vinho ali concebido.

A falta de normas para o controle da produção deu lugar a uma verdadeira epidemia de vignerons e négociants que, de carona no prestígio da região, lucravam à custa da comercialização de importantes volumes sem grandes cuidados. Isto passou a preocupar os proprietários de grandes e tradicionais Châteaux.

Havia uma necessidade premente de se parametrizar a produção e a maneira mais fácil de fazê-lo seria classificar os vinhos bordaleses, estratificando-os por grupos. Já havia um sólido pretexto comercial e um belo contexto histórico pra isso e as circunstâncias se tornariam ainda mais propícias quando no ano de 1855, por ocasião da Exposition Universelle de Paris, todo um potencial de negócios viria bater à porta dos propriétaires. Semelhante à Feira Mundial que realizamos hoje, a Exposição foi a oportunidade perfeita para a França mostrar o seu melhor em uma miríade de categorias. E foi isso que Napoleão III queria realizar em 1855.

Milhares de vignerons de Bordeaux queriam expor seus vinhos diante de dezenas de milhares de consumidores ávidos para conhecer os prazeres daquelas terras. Desta forma, com o intuito de orientar os visitantes, a Câmara de Comércio de Gironde liderada pelo presidente, Duffour-Dubergier, ordenou uma classificação oficial para acompanhar os agora famosos vinhos da denominação Bordeaux.localizados na margem esquerda, com Margaux, Saint-Julien, Pauillac, Saint-Estèphe e Haut Médoc.

Ficou à cargo de um grupo de especialistas no mercado de vinhos de Bordeaux, o Syndicat de Courtiers (Sindicato dos Corretores de Vinho) a tarefa de desenvolver o plano. Versados sobre os châteaux, seus solos, suas vinhas e proprietários, a capacidade destes para tal demanda era um fato. Os trabalhos perduraram 12 dias e seus esforços culminaram no dia 18 de Abril de 1855 com aquilo que hoje chamamos de Classificação Oficial de 1855 de Bordeaux.

Foram, finalmente, definidos distintos níveis de qualidade; 5 entre os tintos e 3 entre os brancos de sobremesa – a delimitação do departamento da Gironde e a constituição da Appellation Contrôlée só viriam a ser estabelecidas muitas décadas depois, em 1911 e 1936.

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As críticas ao modelo

Imune ao tempo, 1855 segue, até hoje, como a mais importante classificação de vinhos de todo o mundo, sendo indiscutível a sua contribuição decisiva para a preservação da reputação da região como um todo. Por outro lado, longe de ser uma unanimidade, também deixou cicatrizes indeléveis entre vinhateiros da região, descontentes com o seu resultado, sejam estes os não enquadrados ou mesmo muitos daqueles que se consideraram sub-classificados.

Outras das fundamentadas críticas à esta, recaem sobre o fato de abordar apenas as regiões do Médoc (60 vinhos) e de Sauternes (26), a exceção fica por conta do premier cru classé Château Haut-Brion, de Graves, de fama inquestionável e portanto, incluído. Outro motivo de discussão em torno de sua legitimidade está no seu perfil estático, praticamente imutável entre seus agrupamentos.

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“Um estranho no ninho”: Haut-Brion, grata exceção de Graves dentre os Crus Classés do Médoc

Rígida e praticamente imutável

Em seus mais de 160 anos, a classificação permitiu apenas 2 modificações. Em 1856, o Château Cantemerie foi incluído em seu nível 5, pelo simples fato de ter sido acidentalmente deixado de fora do documento original. Mas a mais relevante reclassificação ao longo de todo este período, foi, sem dúvida, a do Château Mouton-Rothschild, elevado de Deuxième para Premier Cru Classé em 1973 por meio de decreto presidencial de Charles de Gaulle, que, não bastasse, ainda deferiu a honraria em caráter retroativo à 1855.

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“Originalmente fora do topo”: Mouton como Deuxième Cru Classé em documento oficial de 1855

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Apesar da retroatividade do decreto, a primeira safra como Premier Grand Cru Classé teve arte de Picasso e os dizeres. “Primeiro eu sou, Segundo eu fui, Mouton não mudo”

Níveis de Qualidade

Os rankings foram determinados, em grande parte, pelo preço de venda dos vinhos durante uma determinada janela de tempo. Foi considerado o período de 4 décadas compreendido entre os anos de 1815 e 1855. A Classificação então se baseou na seguinte tabela de precificação média por barril apurada para o período estabelecido:

Premiers Crus Classés: acima de 3.000 francos;

Deuxièmes Crus Classés: 2.500 e 2.700 francos;

Troisièmes Crus Classés: entre 2.100 e 2.400 francos;

Quatrièmes Crus Classés: entre 1.800 e 2.100 francos;

Cinquièmes Crus Classés: entre 1.400 e 1.600 francos.

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Ao todo, um total de 61 châteaux de Bordeaux estão incluídos na Classificação de Bordeaux de 1855 para os produtores de vinho tinto. Isso se divide em 5 Premier Crus (a tradução literal não recomendada seria “Primeiros Crescimentos”), 14 Deuxièmes Crus, 14 Troisièmes Crus, 10 Quatrièmes Crus, 18 Cinquièmes Crus.

Sobre a classificação dos vinhos brancos de colheita tardia de Sauternes, leia mais aqui.

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