Onde está o Bordeaux? Às cegas entre cortes “bordaleses” de todo o mundo.

Texto e notas de prova: Gustavo Guagliardi Pacheco; Fotos: Marcus Verol

Introdução histórica

As primeiras referências escritas ao vinho produzido em Bordeaux remontam ao século IV, quando o poeta galo-romano Ausone, que hoje empresta seu nome a um dos grandes Saint-Émilion, versou enaltecendo os vinhos da região – dentre os quais o que ele próprio produzia. Há fortes indícios de que por volta desta época a viticultura se espalhou e se consolidou na região, ainda sob o domínio romano. 

Mas a reputação do vinho bordalês viria mesmo a se estabelecee somente alguns séculos adiante, durante o domínio inglês, a partir de 1152. Com o casamento de Eleonora de Aquitânia com Henrique II Plantageneta, rei dos ingleses e duque da Normandia, a região, assim como boa parte do oeste da França, ficou separada do restante do país e foi incorporada à rota mercante do império britânico. 

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Port de Bordeaux, Édouard Manet

A reconquista da região pela França, em 1453, marcou o fim do domínio britânico (à esta altura, o “claret” – nome dado pelos ingleses ao sumo de coloração rubi clara – já havia conquistado uma bela reputação)  e abriu espaço para prósperos comerciantes holandeses, que passaram a operar na região; foram eles, com seu expertise em canais e estuários, que no séc. XVII empreenderam a drenagem dos pântanos que dominavam a paisagem do Médoc, permitindo a ocupação das terras por vinhedos.

1855

A classificação de 1855 feita pelo Syndicat de Courtiers, sob influência de Napoleão, determinou os melhores vinhos de Médoc e Graves, estabelecendo denominações que até hoje permanecem praticamente inalteradas. A delimitação do departamento da Gironde e a constituição da Appellation Contrôlée só viriam depois, em 1911 e 1936.

Localização

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A região, de tão extensa, pode ser comparada a uma galáxia com seus sistemas (e estrelas!), estando muito mais para um grande conglomerado de inúmeras AOCs e distintos terroirs do que apenas uma abrangente denominação.

Posicionada no litoral sudoeste da França, a região se localiza no departamento da Gironde, dentro da região da Aquitaine, cortada pelo paralelo 45°, a “latitude ótima” da vitivinicultura. 

A produção se concentra às margens dos rios Garonne e Dordogne, que ao se encontrarem formam o estuário do Gironde, nome também do departamento.

Bordeaux deriva de “bord de l’eau“, “ao longo das águas” e é justamente a abundância desta, tanto de seus rios quanto do mar adjacente, o maior de seus trunfos. Além de amenizar o clima da região, as águas provêm o ambiente ideal para o desenvolvimento das videiras. Um antigo ditado local diz “les meilleurs vignobles peuvent voir le fleuve“, “os melhores vinhedos podem ver o rio”; nestes locais, onde o terreno é basicamente formado por pedras e cascalhos aluviais, a permeabilidade do solo e a drenagem da água são perfeitas – exatamente aí estão a maioria dos principais Cru.

Na verdade, tudo ali é bem diferente. O clima é extremamente delicado, algo instável, e por isso, cada safra se diferencia tanto das demais. Em Bordeaux, é possível saber se um vinho é bom única e exclusivamente pela safra.  2001 e 2002, por exemplo, foram anos ruins – seus vinhos, então, são menos complexos e mais acessíveis; Já as excepcionais 2005 e 2009, ao resultarem vinhos memoráveis, atingiram cifras proibitivas. Na verdade, quando a safra é boa, fica até difícil encontrar os vinhos no mercado. Grandes apreciadores e até mesmo investidores as compram, pois evoluem, guarda e preço, como em nenhum outro canto do mundo.

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Influência global

Em geral elegantes e estruturados, talvez “os mais franceses”. Adquirir uma garrafa de um bom Bordeaux é a certeza de ter um vinho mais do que correto, complexo, que vai evoluir e que sintetiza um conceito.

É grande a influência da região sobre todo o restante da cena vitivinícola mundial, de maneira que em todo o recanto de onde se possa fazer vnho, haverá sim, parreiras de suas espécies nativas sendo plantadas, blends inspirados na “fórmula bordalesa de sucesso” sendo engarrafados e métodos de lá, na vinha e em cave sendo empregados.

Portanto, não importa qual seja o seu estilo preferido de vinho, ele certamente terá sofrido, em algum momento desde a sua concepção, algumas (ou muitas) influências de Bordeaux.

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No dia 26 de Julho de 2016, tivemos a oportunidade de experienciar uma bela e ampla amostra daquilo que Bordeaux pode ser e oferecer em diferentes níveis. Isto se deu em uma prova às cegas em formato de flights divididos por faixas de preços e estrutura.

Foram, ao todo, 4 flights, sendo 3 entre tintos e 1 entre brancos de sobremesa. No que se refere aos tintos, em cada um deles, ao lado do Bordeaux, sempre pelo menos um corte com o predomínio das castas bordalesas do velho e outro do novo mundo. Em um dos flights, um “pirata” de encepamento distinto também esteve presente. A recepção aos convivas se deu com um estiloso branco chileno de inspiração, é claro, bordalesa.

Sobre os flights

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1º flight: “Descomplicadamente Bordeaux”

No primeiro embate, três cortes algo apelativos, fáceis de beber, gostar e entender. Somente um, de fato, é bordalês. Faixas de preço dos vinhos postos à prova oscilando entre R$ 100,00 e R$ 200,00 no varejo brasileiro.

2º flight: “Inspiradamente Bordeaux”

Subindo alguns bons degraus, neste segundo trielo, encontramos mais concentração e, diante de um Second Vin de um Grand Cru de Paulliac, tivemos 2 outros vinhos de equivalente estrutura. Cumpre ressaltar que foi aí que entrou o referido “pirata”. Vinhos compreendidos entre R$ 250,00 e 450,00.

3º flight: “A apoteose da Cabernet Sauvignon”

Neste tempo, teremos 4 grandes expressões daquelas que são consideradas as melhores terras para a “Rainha das Uvas”. Títulos e cortes com base na casta e que conseguem conjugar potência e elegância, tensão e peso, complexidade e muita lonjura (sendo dois deles, históricos). Estarão em seu (suposto) auge, com mais de 10 anos de colheita, o que nos faz refletir também sobre quem envelhece melhor. Faixa de R$ 600,00 a R$ 900,00.

4º flight: “Desafiando Sauternes”

Para o encerramento dos trabalhos, lado a lado um Premier Cru Sauternes versus um botritizado de terroir a ser revelado.

Certamente, não foram poucas as surpresas! Quem será o Bordeaux?

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Notas de Prova e Debriefing dos Vinhos

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Medalla Real Gran Reserva 2008, Valle de Leyda, Chile (91 GGP)

Varietal Sauvignon blanc de clara inspiração bordalesa com 6m sur lies e 6m em barricas francesas. Dourado, evoluído na cor e ao nariz, com classudas notas amendoadas, cítricos amarelos maduros, toques ferruginosos. Ataque e acidez médias, bom corpo, untuoso, volumoso. O leve oxidado é bem vindo, sobressai no acabamento e traz complexidade ao todo. 13,5%.

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1º flight

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Marianne Floreal 2009, Simonsberg, África do Sul (90 GGP)

Cabernet Sauvignon 40%, Merlot 40%, Shiraz 20%. Estagia 22 meses em carvalho francês de 1º uso. Rubi escuro, tons púrpura, com a componente da fruta negra e madura bem envolta em pimenta negra, amendoim torrado e madeira de boa qualidade. A harmonia de boca surpreende, em uma prova fresca e polida num conjunto estruturado e de ótima complexidade. 14,5%.

 

7b701257-2e73-4bba-98cf-31053c4470fe.jpg Kloster Heilsbruck Barrique der Familie 2008 Pflaz (90 GGP)

60% Cab, 40% Cab Franc em pleno Palatinado. Rubi de média intensidade. Franco em um olfativo dominado por empireumáticos dos seus 12 meses de barrica: caramelo, chocolate amargo e café seguidos de calda de ameixa, cerejas frescas, especiarias doces e uma exótica jabuticaba. Bom corpo, bela acidez, taninos sedosos e adocicados que conduzem a um final médio e elegante. 14,5%.

 

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Château Croix de Reverdi 2009, Haut Médoc (87 GGP)

Cab e Merlot em proporções iguais, 12 m de barricas de 2º uso. Vermelho-rubi intenso, reflexos violáceos. Amoras frescas e maduras envoltas por sugestões vegetais e abaunilhadas de uma barrica discreta, seguidas de um fundo defumado e uma certa referência à pólvora. Média estrutura, taninos bem domados, acidez média, bom corpo. Razoável persistência. 14%.

Considerações

Tanto o corte alemão quanto o sulafricano (admitido à prova por considerarmos o critério mínimo de 80% de uvas bordalesas) estiveram bem à frente do Bordeaux regional, corroborando para a tese de que “bordeauxs”, mesmo os de média gama, contam com o valor agregado de sua procedência para estarem em faixas de preço de vinhos superiores, porém de zonas vitivinícolas menos consagradas.

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2º flight

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Mitolo G.A.M 2009, McLaren Valley, Austrália  (92 GGP)

Rubi de tonalidade média à escura. Expressivo e bem aromático, exala pequenos frutos negros e grãos de pimenta escura macerados, seguidos de bacon, toques grafitados e uma bela barrica. Seu ataque é firme, desfila encorpado, com acidez, álcool e fruta totalmente integrados, evoluindo em múltiplas camadas em palato amplo e de grande prazer. 14%.

112ef055-1666-41dd-9af3-e05283f4007c.jpg Marques de Griñon svmma varietalis 2008, Toledo (90 GGP)

Vino de Pago da DO Dominio de Valdepusa, Toledo, Castilla & La Mancha. CS, PV, Syrah, 12 meses em barricas francesas de 2º uso. Rubi, reflexos púrpura. Intenso e marcante, frutos do bosque maduros, especiarias, fumados e sugestões minerais. Acidez baixa, bela estrutura, taninos macios e de boa textura. Relativa complexidade e boa persistência. 14,9%.

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Lacoste Borie 2009, Pauillac (91 GGP)

70% CS, 28% Merlot, 2% CF. Parcelas distintas do Gran Vin. 12 meses em barricas de 2º uso. Rubi de média tonalidade. Frutos silvestres escuros, alcaçuz, caramelo, lavandas, balas toffe, baunilha, especiarias, cedro, tabaco, pimentas brancas, nota vegetal. Palato enaltecendo a fruta, boa acidez, taninos redondos, final médio e picante com toques salinos. 13,5%.

Considerações

Aqui, tivemos um belo Second Vin de um Cru Classé de Pauillac que cumpriu bem o seu papel, entregando qualidade e autenticidade. Um corte espanhol marcadamente mais quente, em um estilo mediterrâneo e algo rodânico – e até aí, tudo bem, com leve vantagem para o “original Bordeaux”. Mas, como já previsto, a inserção de um pirata dificilmente passaria em branco e, de fato, foi o que se sucedeu. Apelativo, especiado, luxuosamente madeirado, texturado e em uma vertente totalmente distinta, um bom Shiraz australiano foi avassaladoramente o favorito para 16 dos 18 presentes, confirmando o potencial que grandes vinhos calcados nesta casta têm de surpreender em degustações às cegas.

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3º flight

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Dominus, Napa Valley (95 GGP)

86% Cab, 10% Cab Franc, 4%  Petit Verdot. Christian Moueix. Nariz ao mesmo tempo poderoso e contido, denso e repleto de cassis, amoras e mirtilos bem escuros, toques de sândalo, couro e grafite. Pleno, se estabelece um mix guloso de frutas negras com excelente mineralidade e frescor, trazido por taninos de grande qualidade, firmes e sedosos. Seu final é longo, elegante e confirma um perfil claro de foco na fruta negra. 14,5%.

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Saxa Calida, Maremma/San Gimminiano (93 GGP)

1:1 Merlot/Cab. Granada escuro. Bouquet de pequenos frutos negros do bosque, ervas, pimenta negra, cera, balsâmicos e uma barrica luxuosa. Preciso, agudo e de ótima concentração, rico em especiarias (como canela), grafite, chocolate e um leve tostado. Boa acidez, grande maciez, acabamento complexo. 14,8%.

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El Principal, Valle del Maipo (96 GGP)

CS: 83%; CM: 17%; 18m. Rubi intenso, reflexos violáceos. Mirtilos, cassis licorados, toques balsâmicos, bela moldura de madeira de eucalipto (frescor). Concentrado, cheio, voluptuoso, mas o todo se mantém bem equilibrado e elegante, com os taninos esbanjando maciez e a acidez muito apropriada e em perfeita medida. As camadas são crescentes e os aromas só fazem se intensificar a cada novo gole. Seu final é longo, compotado, cremoso e achocolatado. 15%.

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Château Reignac 2005, Saint-Loubès, Entre-Deux-Mers (93 GGP)

50 ha de vinhas densamente plantadas (6.000 plantas/ha), com média de 42 anos de idade. 75& Merlot, 25% Cabernet, 19 meses em barricas novas de 7 tanoarias diferentes. Vermelho escuro, quase opaco. Toda a essência de Bordeaux em ameixas e cassis maduros, seguidos da baunilha de uma barrica muito bem inserida, toques mentolados, funghi porcini e um sedutor grafitado. Rico em matéria e com um grande peso, alia opulência à tensão em um palato vigoroso e intenso e ricamente frutado. De grande persistência e ainda uma longa vida em garrafa pela frente (14%).

Considerações

Com a proposta de perfilar 4 grandes vinhos, este painel era, em matéria de avaliar ou se eleger melhores e piores o mais difícil, mas, pelo outro mais importante lado, era também o mais fácil de ser apreciado. E foi com maestria que todos desfilaram predicados de uma escola bordalesa moderna e atual, com uma clara vertente de fruta madura regendo um todo bem trabalhado.

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4º flight

Château Sigalas Rabaud 2007, Premier Grand Cru Sauternes 2007 x Tokaji Aszú 2008 3 puttonyos (+ Gorgonzola recheado com nozes e damascos sob compota de laranja).Sauternes x Botrytis de terroir a ser revelado.

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Tokaji Aszú 2008 (90 GGP)

Corte Furmint (estrutura e acidez), Hárslevelü (doçura), 9:1, videiras com mais de 3 décadas, 18 meses em barricas. Âmbar de média tonalidade, reflexos dourados. Flor-de-laranjeira, mel, damasco, fruta confitada. Invejável equilíbrio entre acidez, doçura e frescor. Surpreendentes complexidade e profundidade. 13,5%.

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Château Sigalas Rabaud 2007 (91 GGP)

14 ha em Bommes, parcelas em base de areia, cascalho e argila, Semillon, Sauvignon Blanc 9:1. Vinhas com idade média de 45 anos, 20 meses em barris de carvalho. Âmbar, reflexos dourados. Frutas amarelas de clima quente (laranja, abacaxi, limão siciliano) secundadas por mel, marmelada, florais, baunilha, especiarias. Médio corpo, vibrante, com belo ajuste entre seu grande frescor e sua cativante doçura. 13,5%.

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Considerções

Um Premier Grand Cru Sauternes esteve marcadamente mais brilhoso, com sua fruta amarela mais intensa e expressiva, em relação a um mais untuoso, porém menos fresco Tokaji. A compota de laranja da sobremesa estava alguns tons acima de ambos, mas a julgar apenas pelo Gorgonzola com nozes e damasco, a harmonização teria sido das grandes.

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Agradecimentos: Sommelier Gustavo, garçons Fittipaldi e Zico.

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