Toda a Riqueza do Vale do Douro

Notas de Prova: Gustavo Guagliardi Pacheco; Apresentação do Encontro: Ricardo Cunha; Fotos: Gustavo Guagliardi Pacheco

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Com uma cultura vínica que remonta de tempos quase imemoriais (4 mil anos), o Douro é, certamente, a mais tradicional DOC de nossos Descobridores.

Mas foi somente durante a ocupação Romana que o cultivo da vinha se desenvolveu. À montante do cultivo de oliveiras e cerais, a prática se consolidou e intensificou com o estabelecimento de rotas comerciais essenciais ao escoamento da produção até os dias de hoje.

Um dos acontecimentos que marcou a história da região e, em particular, do Vinho do Porto, foi a assinatura do Tratado de Methuen, em 1703, que veio impulsionar ainda mais o comércio destes vinhos junto ao mercado britânico, resultando na fixação massiva de agentes comerciais ingleses no Porto e no Douro. Com o tempo, estes viriam, pouco a pouco a conquistar o domínio de todo o trade envolvido nesta atividade.

O Douro é, certamente, a mais tradicional denominação de nossos descobridores, mas, muito além disso, é tido também como a primeira região demarcada de vinhos do mundo. Como se não bastasse, pelo epíteto de sua belíssima paisagem, resultado da intervenção benéfica da atividade humana sobre a natureza e todo o contexto cultural, o vale do Douro encontra-se na lista de Patrimônios Mundiais da Humanidade pela Unesco.
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“pisa-a-pé” na Quinta do Panascal, Vale do Távora, Alto Douro Vinhateiro

Foi num contexto de relativo sucesso e mercado já consolidados, que a imagem de tão precioso ativo começou a ser ameaçada pelo uso indiscriminado da designação “Porto” em uma enormidade de rótulos de fortificados de outras procedências. E em 1756, pelas mãos do então primeiro-ministro português, Marquês de Pombal, de forma a garantir a qualidade, autenticidade e a reputação dos vinhos ali produzidos, a região viria a ser finalmente demarcada.

A Região Demarcada do Douro abrange uma área de cerca de 250 mil hectares, embora apenas cerca de 45 mil estejam plantados com vinha. As Serras do Marão e de Montemuro protegem a região dos ventos húmidos do Atlântico e são determinantes para o clima da região, que se caracteriza por invernos rigorosos e verões quentes.

Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior são as três sub-regiões que, cada qual com sua grande variedade de microclimas e solos, irão conferir diferentes características às uvas, que fundamentarão os diferentes tipos de Vinho do Porto e de Mesa que ali nascerão.

Clima

Dito como agreste, temperado continental sob pouca a moderada influência atlântica, tem temperaturas que podem oscilar intensamente, desde a possibilidade de neve em suas partes mais altas no inverno ao frequente e abrasador calor de seus verões, em geral secos, para muitos, o Douro é, dentre as grandes regiões vitivinícolas do mundo, aquela de clima mais quente.
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solos xistosos: um dos fatores determinantes para o terroir duriense

Topografia e Solos

O relevo montanhoso, entrecortado pelos meandros do Douro e seus afluentes está calcado em um subsolo granítico, com trama caracteristicamente xistosa, configurando terrenos pobres, aluviais, de ótima drenagem e permeabilidade que darão o tom do terroir e de seus vinhos.
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Socalcos

Outra característica marcante na paisagem agreste e fluvial do Douro é a ocorrência dos chamados socalcos, que conferem “aquela”  cenografia geométrica singular nas encostas por todo o vale.
Intensamente difundidos sobretudo entre os séculos XVII e XIX, são patamares ou muradas agrícolas erguidos com as próprias pedras locais visando a maior otimização do espaço do terreno, o melhor rendimento na vinha, a diminuição da ação erosiva e a facilitação do manejo.
Seguem sendo amplamente utilizados até os dias de hoje. Entretanto, em vista dos alto custos necessários para a sua concepção, tanto no que se refere à mão de obra, quanto ao material rochoso, raramente encontramos novas construções deste tipo.

Barcos Rabelos

Antes da criação das estradas e dos caminhos-de-ferro, as longínquas e remotas quintas do Vinho do Porto eram apenas acessíveis através do Rio. Era aqui que se fazia o delicioso Vinho do Porto, o ouro de Portugal durante muito tempo, e não podia ficar aqui esquecido. Tinha de ser mostrado ao Mundo. Tinha de ser apreciado pelo Mundo. E, assim, os Barcos Rabelos tiveram um papel preponderante na dignificação deste delicioso Vinho Português. O Barco Rabelo foi primordial na dignificação do Vinho do Porto pelo Mundo

Nesta altura, o Rio Douro fervilhava de fúria. Com cólera e raiva inigualáveis, só descansava quando chegava ao mar. Até as barragens começarem a ser construídas na década de 70, este rio traiçoeiro tinha uma corrente rápida e turbulenta. Por isso, as suas águas exasperadas corriam altivas, sem pena de quem pudessem deixar para trás. E foram estas mesmas águas que os Barcos Rabelos romperam, foram estas mesmas águas que corajosos marinheiros portugueses atravessaram.

O Barco Rabelo é considerado uma obra-prima para aquele tempo. Desenhado para conseguir sobreviver às correntes rápidas do Rio Douro, era uma embarcação de fundo chato, vela quadrada, que media entre 19 a 23 metros. Era construído com tábuas sobrepostas e conseguia transportar até 100 barris de Vinho do Porto e uma tripulação até 12 homens.

Estes homens, marinheiros bravos, eram homens de fé. Na verdade, só com uma crença inabalável e a certeza da protecção divina conseguiam ter a coragem necessária para partir para tais fatídicas jornadas, sempre com a incerteza se voltariam a pisar terra firme. Havia viagens incrivelmente calmas, mas quando o barco era apanhado pela corrente enfurecida nada mais havia a fazer do que confiar no destino e deixar-se levar, rezando a Deus, ao Deuses, a quem pudesse estar no Olimpo.

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Assim, numa tentativa das suas preces chegarem mais rapidamente aos Céus, era costume dar-se nomes religiosos aos Barcos Rabelos e foram edificados muitos santuários e desenhadas maravilhosas pinturas nos penhascos com vista para os desfiladeiros mais perigosos. Muitas vezes não foram suficientes mas deram, pelo menos, confiança à tripulação. Esperança…

Apesar de serem homens fortes e habilitados a navegar, muitas vidas foram perdidas neste rio, incluindo a do Barão Forrester que faleceu em 1861, afogado com o seu lendário cinto de dinheiro cheio de ouro. Há quem diga que foi dos primeiros a afogar-se devido ao volumoso peso do cinto. No entanto, malgrado estas águas impiedosas, muitos Rabelos chegaram bom ao porto e milhares de barris conseguiram chegar às frescas Caves do Vinho do Porto. A partir daqui, o Vinho do Porto foi enviado para o mundo!

A primeira via ferroviária do Douro foi terminada em 1887. Começava a cair, assim, o legado do Barco Rabelo, já que o rio deixou de ser a única opção para o transporte de mercadorias. Mas, mesmo assim, estes barcos não caíram em desuso durante décadas. Aliás, crê-se que a última viagem de um Rabelo pelo Rio Douro tenha ocorrido já em 1964.

Hoje em dia, os tradicionais rabelos continuam a embelezar o Rio Douro, mas desta vez apenas na zona ribeirinha. Um cruzeiro pelas margens de Porto e Vila Nova de Gaia, em réplicas destes barcos, continua a valer a pena. E no dia de São João, dia 24 de junho, a corrida de Rabelos chamada “Regata Anual de Rabelos”, é dos eventos mais aguardados do ano. Um evento que embeleza ainda mais as margens do Douro e ajuda a manter viva esta História tão orgulhosamente portuguesa.

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Pelas águas do celebrado rio, entre suas ensolaradas colinas e até sua bela foz, fomos conduzidos por alguns dos mais extraordinários caldos desta terra em uma noite em que um autêntico duriense, Ricardo Cunha, nos apresentou um pouco da história e da enogastronomia deste fascinante vale.

O Encontro transcorreu sob a batuta do Chef Flaviano e os cuidados do Sommelier Carlos André no Bistrô da Sociedade Hípica Brasileira no dia 22 de Maio de 2014.

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Menu

1a Entrada: Folheado de Queijo de Cabra

Vértice Millésime 2009

 

2a Entrada: Punheta de Bacalhau

Guru Branco 2012

 

1o Prato: Rojões de Lombo de Porco com castanhas

Quinta da Manoella Vinhas Velhas 2011

 

2o Prato: Cabrito Assado à Moda do Douro

Passadouro Reserva 2009

 

Sobremesa: Compota de Goiaba ao Catupiry

Quinta do Noval 10 anos Tawny Reserva 

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Notas de Prova

Vértice Millésime 2009

Elaborado por Celso Pereira, enólogo inovador, que, utilizou só uvas autóctones na elaboração deste fino e aromático espumante citrino de bolhas mínimas. Nariz de torrefação sobre frutos cítricos elegantes e agradável amanteigado. Acidez e cremosidade requintadas, ótima estrutura, prazeroso final frutado. Não à toa mereceu distinção dos mais prestigiados e influentes guias do mundo sobre champanhes e espumantes; a “Christie’s World Encyclopedia of Champagne & Sparkling Wine”, o incluiu em sua lista, enquanto a Enciclopédia Mundial de Espumantes Tom Stevenson o elegeu o melhor espumante já feito em Portugal. Só nos restou concordar e aproveitar o seu feliz encontro com o folheado de queijo de cabra. 89

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Guru Branco 2012

Já ouvi de respeitáveis enólofilos que a Terrinha não vinificava brancos com a mesma maestria e nem tão pouco, possuia castas para tal. Que conheçam então este corte de Viosinho, Rabigato, Códega do Larinho e Gouveio. Profuso, cheio, tão amplo  e rico que até desfila alguma soberba, tão complexo, que beira o indecifrável. A Punheta de Bacalhau, cuja origem do nome está no desfiar à mão (ou aos punhos) o pescado cru e amassar o conjunto já temperado, não chegou a brigar com o Guru, mas certamente não o elevou ao patamar que a sua degustação sola proporciona. 92

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Quinta da Manoella Vinhas Velhas 2011

Salpicaram chocolate em pó sobre um punhado de cerejas ainda por madurar e que haviam sido deixadas ao sabor da maresia. Esta é a fruta fresca e levemente condimentada, sutilmente adocicada, mormente azeda que se deixa impregnar pela mineralidade salgada do Quinta da Manoella VV 2011. Extremamente charmoso, de taninos finos e final densamente frutado. Apesar da contrariedade de nosso cicerone Ricardo com o apressado cozimento dos lombos, resultando em perda de maciez, e da ausência das castanhas, a rusticidade dos Rojões de Lombo de Porco casou perfeitamente com a nobreza do vinho. 92

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Passadouro Reserva 2009

Figurando entre os top 10 tintos do Douro pela aclamada revista inglesa Decanter, está o nosso “vinho de homenzinho da noite”. Proveniente de vinhas velhas que superam as 6 décadas de existência, calcado em uma base de Touriga Nacional e Franca, desfila um nariz de fruta bem profunda com toque floral mesclado a um delicioso pão torrado e à baunilha sutil da madeira bem integrada. À boca, sua bela acidez e seus sedosos taninos seduzem. Foi catapultado pelo suculento Cabrito à Moda do Douro, potencializando-se mutuamente ao lado do estruturado prato. 92

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Quinta do Noval 10 anos Tawny Reserva

Um Tawny envelhecido de reputada origem, servido à temperatura certa e em boa companhia é a certeza de que as boas coisas são simples! Este nasceu independente, dispensou par e assim, sozinho, já nos deslumbrou com seu alourado intenso, com seu amplo nariz de geléias bem maduras, avelãs, amêndoas torradas, cravo, canela e um figo ao forno e uma boca licorosa envolvente e longa. A harmonização de tamanha instituição portuguesa, entretanto, nem sempre é tão fácil quanto parece. Arrisque e ponha por terra um grande vinho ou toque o céu melhorando o que já parecia irremediavelmente perfeito. A compota de goiaba prevista foi, de última hora, substituída por uma goiabada derretida. Cabia ao queijo brecar a doçura e viabilizar o casamento de um vinho com vocação para a solteirice. O Império deu lugar à Colônia e o Serra da Estrela deu passagem ao Catupiry. Conseguimos. 90

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Resultaram as harmonizações, pela média dos confrades;

1o curso: 2+2=5; 2o curso: 2+2=4; 3o curso: 2+2=5; 4o curso: 2+2=5+; 5º curso: 2+2=5

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